segunda-feira, 18 de julho de 2011

Uma viagem em Techolcia



São centenas de abelhas se aproximando?
Não, milhares

Céu fechado sobre mim
Deliro
Estou suando. Estou negro e cadavérico
Estou sendo assassinado e há moscas em minha volta
Sou Abrahan Lincoln num quarto escuro

Hienas, cães do mato e ratos são minha platéia
Aguardam em silencio para entrar em cena
Vasculham ao redor, farejam, revolvem-se espumando e mastigando o nada

As hienas são horríveis, porque elas riem realmente
e elas tem raiva, e sobretudo, fome

Os cães do mato, subservientes, esperarão a hora em que a alcatéia abandonará minha carcaça; já bem dilacerada
e se servirão dos músculos e das partes deixadas pra trás pelas hienas

Os ratos roerão; as pontas do meus dedos, minha língua e meus órgãos genitais

E de todo meu resto, o Sol; que assumirá seu posto, se incumbirá de dar calor
de tratar ao bronze eterno
somente agora meus duros ossos; num deserto
em alguma viagem, em que me perdi
num verão indígena
em Techolcia

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Avant Stéreo





depois do próximo outono
algumas cidades já estarão incendiadas

algumas calçadas haverão acolhido em seu colo de concreto
cadáveres dos filhos de alguém

vários jornais estamparão fotos de ilustres desconhecidos
flanando em belo e rebelde desfile

crianças aprenderão o que o gesto;
o grito silencioso, o urro,
de um punho erguido
significa

enquanto do outro lado da praça

o balé improvisado de se esquivar da morte
no dorso fúnebre
de uma avenida em marcha

e

ao seu redor,
os seus
ao redor do seus,
nós
em volta de nós;
juntos

cada
um
um
universo

venho pensando _ “pessoas são estrelas”

ultimamente
sempre que olho pro céu
acredito num certo tipo de
novo e estranho
Deus
que suspira ao redor e move o ar à sua volta

#

terça-feira, 17 de maio de 2011

Para antes do café

foto: Mariana de Lima



Os rapazes estão soltos pela rua
As meninas dançam no asfalto ao luar
Borboletas fazem cócegas na cintura
Minha vida a dois passos do seu calcanhar
Displicentemente atiro pedras sobre o muro
Pego carona, sem ninguém pra me acompanhar
Invento moda, faço festa, fumo bagulho
[e desligo a TV
na hora da novela para ouvir você cantar

“Rasga o peito e deixa sangrar
não saber sambar direito e não ter olhos pra te incomodar...
_ 'Será que algum lugar existe um bar
que nunca fecha?
Com bêbados maravilhosos nos saudando,
enquanto o sol
nos risca em
flechas...'”

quarta-feira, 20 de abril de 2011

reza




reza lenta escrita à faca que sua pele inflama


#

domingo, 17 de abril de 2011

Passeio pelo bairro do Avarandado


Sábado
sete da noite
homem arruma uma mala
mulher entra no quarto


Ontem a polícia esteve aqui.
Mesmo?
Odete que os atendeu.
...
E o que eles queriam?
Falar com você.
Comigo?
Com você.
Hum...
...
...
O que está fazendo?
Bem, eles devem me procurar novamente.
Mas o que aconteceu? Porque?
...
Hum ... acho que matei alguém.
...
Como assim?
Não sei, não me lembro...mas acho que matei sim.
Você matou... alguém?
...
...
...
Você fala sério sobre isso.
Sobre o que?
Sobre matar alguém?
Falo.
Mas o que aconteceu, como não se lembra?
...
Não me lembro.
E como sabe que matou?
Não sei, apenas sinto.
Pára com isso, está me assustando...
Eu sei.
...
Pra onde você vai?
Não sei.
...
Mas e se a polícia voltar?
Diga a verdade.
Que você matou alguém?
Não, que não sabe pra onde fui...
Mas e suas coisas...?
Guarde-as. Não tenho nada mesmo.
...
Espera, pára. Você esta bem? O que aconteceu ontem? Você está estranho e me assustando.
Eu sei.
Pare de dizer isso...abra a boca e fale comigo.
...
...
...
Adeus.
Não, volte aqui. Não vou deixar você sair assim...
...
...
Não me impeça por favor.
Eu quero que fale comigo... você não está bem, isso não pode ser...o que aconteceu, eu quero saber.
Ontem eu matei alguém...
...
Como assim?
Dei um tiro, acho.
Mas você nem tem arma.
Tenho.
Ahhhhhhh
....
Adeus.
Não, espera. Onde aconteceu, alguém te assaltou, porque andava armado?
Não, não fui assaltado...não sei por que estava armado.
Mas isso não faz o menor sentido, você não diz nada com nada, como assim atirou em alguém? Aonde você estava? Fala.
Não me lembro muito bem, mas...
...
...
...
foi bem no peito...
O que ?
O tiro.
...
...
... isso mesmo, foi bem no peito.
Mas porque andava armado, onde comprou essa arma?
Comprei perto do antigo mercado, de um cara, foi barata.
Para que?
Acho que pra matar alguém.
Ahhhhhhhhhhhh

Não chore, não adianta mais nada. Apesar de que chorar faz bem, quando se tem motivo e vontade.
O que está acontecendo, você está louco?
Não, não, eu apenas matei alguém e isso é contra a lei...por isso a polícia está atrás de mim.
O que você está falando? Como assim “matei um cara”?
Como sabe que era um cara, se não lhe disse?
Eu não sei seu desgraçado, louco.
Mas era...
...
E daí? Não me importo.
Então não chore amor.
Isso tudo é mentira pra você ir embora. O que é, não tem coragem de assumir que não é mais feliz comigo, e inventa essa porra de história ?
Não, é tudo verdade, mas ainda não me lembro muito bem...
Seu desgraçado, maluco... o que está acontecendo?
A polícia está atrás de mim porque matei alguém e você diz que não te amo mais...quem é mais egoísta de nós dois?
Quem você matou?
Não sei...
Ahhhhhhhhh...você está drogado, ou o que? Some por um dia e volta louco, o que aconteceu, como assim?
Também não sei ao certo...
...
...
...
...
Você vai para o sítio?
Não, lá é o óbvio.
Pra onde vai então?
Não sei.
Mas é pior fugir da polícia, e se te pegam?
Calma, o pior já passou.
...
Você está doente amor. Isso não é real. O que aconteceu com você?
Meu bem, acho que já estou morto...
Como assim?
...
...
...
...
...
...
Olha
...
...
Ontem, às 3, quase 4 horas da tarde, saí do escritório, peguei um ônibus pro Avarandado... deixei meu carro no estacionamento, inclusive ainda deve estar lá.
E...?
Lá é um bairro de classe média, você conhece, já fomos por aquelas bandas...não sei muito ao certo porque quis ir pra lá...talvez pegasse o primeiro ônibus que aparecesse... Não, não, escolhi de alguma maneira o Avarandado.
Sim, sim. Continue meu bem, fale.
Lá tem uma avenida arborizada cheia de cestas de lixo e pessoas passeando de bicicleta na rua...
...
...
...
Diga.
Querida, eu simplesmente desci do ônibus, sentei numa cadeira em frente a uma padaria e...
...
...
...
...
atirei num homem que vinha descendo a rua. Mas não foi ao acaso. Não, eu o escolhi. Antes havia apenas crianças andando de bicicleta e mulheres comprando pães, uns velhos também apareceram...e um cara magro e feio também surgiu. Nesse eu quis atirar. Mas esperei alguém melhor, realmente melhor, melhor que eu.
...
Você não pode estar dizendo a verdade. Porque fez isso?
...
Não sei amor...eu precisava matar alguém.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Não querida, não chore. Você vai ficar bem. Nossas rendas lhe darão uma vida regrada, mas sem dificuldades.
Você fala como se nunca mais fosse voltar. Por que você fez isso? Você ficou louco?
Sim, acho que sim, meu bem.
...
...
...
Adeus

terça-feira, 22 de março de 2011

Matar ou Morrer!!!

"Deseim" de Luiza Guedes


Começa assim...

O risco profundo da tinta
na pele
O som silencioso das palavras
nos olhos
A cócega estranha da voz
na língua
O sorriso singelo; dela
na boca
O toque sutil dos dedos
na nuca
O suor envenenado escorrendo do colo
aos seios

o abraço eterno dos amantes despencando em gozo sobre e adentro o precipício
suas mortes anunciadas
congelados num instante divino
seu sexo abrindo novas dimensões
trazendo Atlântida submersa à superfície
existindo eternamente num mero segundo etéreo

e à noite rondando suas casas
soturno; o desejo

e d’agora em diante é matar ou morrer
cuidado!!! perigo!!!
à espreita sorrateiro no canto atrás da porta esperando
a hora certa
de pular no seu pescoço

não abra sua janela
não cubra o rosto ao dormir
revólver engatilhado sob o travesseiro

viver na corda bamba, na ponta da agulha,no fio da navalha
sangue coagulado nos lábios, surra da própria vida

então
põe gelo, merthiolate

e beije a boca
de quem você queira

pois antes que morra de desejo;
mate-o

#

sexta-feira, 18 de março de 2011

Carnaval de Março


eu
uma
hora quero
o
seu
cheiro
no
meu
cabelo
e
não
vou
esperar isso
ou
o
tempo pode
me deixar
louco
e
pouco
a
pouco
vir
a
desaparecer
junto
à minha voz
cantando seu desértico nome
em suave e breve tom
rouco
minha imensa vontade
de
você
porque amores acabam
marés sobem
sóis se põem
e
a vida é breve
ou
quem sabe minha
pressa
possa sugerir
que
eu
reze uma
prece
pra amansar minha calma
em lugar de lhe avançar a
nuca
subitamente
como acho que deveria fazer
e assim evitar
nunca
ter escrito
isso

#

terça-feira, 1 de março de 2011

Nosso amor nos muros da cidade


"sim, devo admitir este triste fim entre mim e Renata.
nos conhecemos numa festa agropecuária da região.
ela gostava de gian e giovani e eu do gorillaz.
nos interessamos um pelo outro justamente pela intensa diferença de nossos mundos.
tsk tsk tsk... mentira!!!
era nossa atração sexual que nos guiava.
transávamos em todos os lugares.
éramos impetuosos e arredios
nossos beijos eram incômodos e desagradáveis
e assustavam guardas de trânsito
e senhoras do bom decôr.
nos inscrevemos em diversos programas de auditório para
casais sabidos um do outro.
ganhamos vários.
pensamos até em montar uma dupla sertaneja; Robisson e Renata.
vivíamos felizes.

mas um dia acabou.
foda... é a vida.
às vezes penso em ti Renata... você era muito legal
uma hora me liga.
e outra coisa, meu nome é com dois “SS”...
beijos

PS: um abraço no teu irmão, diz meus pêsames pelo Vasquinho dele"

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Novo livro pra 2011

Fui selecionado pela Lei de Incentivo a Cultura de Minas Gerais.
Agora vamos trabalhar, que a festa só começou.
Ducaralho!!!


Dentre os projetos aprovados de Uberlândia, estão Festivais de Música, Montagens e Festivais Teatrais, Revistas em Quadrinhos, Festival de Dança, Gravação e circulação de bandas e músicos, Preservação do Patrimônio Histórico e Documentários Áudiovisuais.

#

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

To be or not to be... OrFEL

"O fanzine chega para possibilitar que as palavras sigam o rumo das notas musicais, acordes, baquetas, ximbaus, palhetas e cases nos mais de 130 pontos onde acontece o Festival Grito Rock."




Em fevereiro, a FEL - Fora do Eixo Letras - lança seu primeiro fanzine, OrFEL, uma publicação que contém poesia e prosa de diversos escritores ligados ou não ao Circuito Fora do Eixo. O fanzine contendo representantes de todas as regiões do país, irá circular em formato impresso em todos os pontos onde acontece o Festival Grito Rock América Latina. O trabalho está também disponibivel em pdf com a licença do Creative Commons no link

http://www.4shared.com/document/eAbeFloW/OrFEL_impresso.html

No total, foram mais de 100 trabalhos inscritos para o fanzine, que reúne 14 autores selecionados por uma curadoria formada pela FEL e pelo Núcleo de Poéticas Visuais. A relação entre estas duas frentes do Circuito Fora do Eixo favorece a discussão sobre a literatura e as artes visuais, bem como demais núcleos artísticos, como o AudioVisual e o Clube de Cinema, buscando compreender a cadeia produtiva das linguagens artísticas para pluralizar conceitos e democratizar seu acesso.

Acreditando que toda palavra tem seu sentido construído socialmente, OrFEL espelha alternativas elaboradas coletivamente e se apresenta como uma forma de produção, circulação e divulgação de obras para as cidades onde ocorre o Festival Grito Rock 2011.

Os autores de OrFEL#00

OrFEL conta com autores de todas as regionais ligadas ao Circuito Fora do Eixo, o Norte, Nordeste, Centro-oeste, Sudeste SP/RJ, Sudeste MG/ES e Sul. Entretanto, há autores de fora do circuito que também fazem parte do fanzine. Seu conteúdo preza pela singularidade e diversidade estilística, gerando uma sútil sensação de tournê dos autores e de suas palavras durante o Festival Grito Rock.

Dentre os estados participantes, Minas Gerais se destacou como o que mais enviou obras para a curadoria. Entretanto, além dos talentosos mineiros, vários sotaques literários, sabores e sintomas proporcionam aos leitores uma visão para além da palavra-livro.

Entre as folhas de OrFEL é possível encontrar, por exemplo, a poesia da bahianinha Brisa Moura, de apenas 16 anos, escolhida para representar a Regional Nordeste. E, apenas algumas páginas a frente, a prosa de Maryllu Caixeta, doutoranda em estudos literários pela Unesp de Araraquara/SP e autora do livro Leros e Boleros, uma das representantes da Regional Sudeste SP/RJ.

Conheça os autores selecionados para o fanzine OrFEL:

Regional Norte:
- Jenifer Nunes - Coletivo Palafita - Macapá/AP
- Kaline Rossi - Coletivo Catraia - Rio Branco/AC

Regional Nordeste:
- Brisa Moura - Jequié/BA

Regional Centro-oeste:
- Waller Chaves - Goiânia/GO

Regional Sudeste RJ/SP:
- Fabiana Ribeiro - Araraquara/SP
- Clara Mancuso - Coletivo Ajuntaê - Campinas/SP
- Maryllu de Oliveira Caixeta - Araraquara/SP

Regional Sudeste MG/ES:
- Crys Marques - Coletivo Corrente Cultural - Poços de Caldas/MG
- Renan Moreira - Coletivo Corrente Cultural - P. de Caldas/MG
- Luis Fernando Resende - Uberlândia/MG
- Marco Antonio Neri - Coletivo Namarra - Santa Luzia/MG
- Leon Aguiar - Uberlândia/MG

Regional Sul:
- Neo One Eon - Movimento Soma - Porto Alegre/RS
- Isabela Cunha - Coletivo Alona - Londrina/PR

Fora do Eixo Letras





A FEL - Fora do Eixo Letras - é a frente temática do Circuito Fora do Eixo que reúne escritores, fanzineiros, artistas visuais, músicos, acadêmicos e leitores interessados em compreender a cadeia criativa e produtiva da palavra em suas diversas formas - escrita, falada, visual, sonora e multimídia.

Seus primeiros passos foram dados durante o III Congresso Fora do Eixo, em outubro de 2010, na cidade de Uberlândia (MG). A partir de então, começou a articulação de seus membros para o reconhecimento e mapeamento de livros, fanzines, clubes de leituras, festivais, iniciativas literárias e demais trabalhos realizados pelos Coletivos e por outros atores sociais, buscando confrontar experiências locais e visualizar horizontes em comum. A elaboração e circulação do fanzine OrFEL é a primeira ação do Fora do Eixo Letras, definida em seu planejamento para 2011.

Tamo junto!!!
#
Licença Creative Commons
A obra OrFEL de Fora do Eixo Letras foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Proibição de Obras Derivadas 3.0 Não Adaptada.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

um dia de náufrago




Meus ridículos pontiagudos cravados no ombro como bandeira branca, na minha vaga idéia de naufrágio.


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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quis Kiss Me - canção/poema em construção


Quando um dia pela manhã
Meu carro estacionado no portão
Meu cachorro me sorriu latindo

E de todas, quem eu lembrava era você

Comprei um postal do fim do mundo
E pintei dois quadros dos seus olhos

Cabelos longos; quis contar todas nuances do seu rosto

Quis contar as conchas do mar
Quis dizer meus segredos pra você

Vai...

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Papo com Blog Molho Livre (GO)

Nesse link
http://molholivre.blogspot.com/2011/02/entrevistando-robisson-sete.html


entrevista onde falo sobre sobre literatura, música e cortes de cabelo dos anos 60.


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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Poema de Mae West a beira da morte


"as alturas me dão náuseas
facas deixam marcas
armas fazem barulho
venenos cheiram mal
águas me atormentam
cordas arrebentam

é
prefiro viver!!!"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

céu e inferno


"meu inferno
é o céu
da sua boca
"

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Rio de Janeiro



Uma língua lasciva percorre as ruas do Rio de Janeiro
e varre a cidade em sopro libidinoso
um vento marítimo toca e cora as maçãs do rosto das moças
e os homens as devoram; suas carnes, em brutos pecados cotidianos

Praia do Flamengo
Rua Machado de Assis
Morro da Mangueira
Rodoviária Novo Rio
Lapa

Motoristas de ônibus fumam cigarros
Artistas da Globo me dão informações
“Chuva forte é a que vem do Cristo”
Um Hotel com o nome dela
Uma rua chamada desejo

Na praia, tecer desvarios ao nascer do sol
e bater palmas ao seu poente
pois sabemos que quando a noite inicia sua dança
as feras se soltam e permanecem a espreita
e desde os pontos de ônibus aos restaurantes da moda
vai-se logo sentindo na fronte o hálito da selvageria e violência oculta
evocando suor sexo e morte
e com um sorriso irônico e despretensioso
a dor, vai afinando seu violão
a tristeza, vai esticando o couro do pandeiro
e a tragédia puxando sua cadeira na roda de samba
e assim todo dia permanece sendo somente mais um dia
na cidade do Rio de Janeiro

Já nós, em nosso caminho lento
de flaneurs, braço dado a João do Rio
fazemos de todos os dias
nosso réveillon
e eu pulo então, não somente sete
mas milhares de vezes
com meus dedos
ondas sobre seu corpo
desejando pra nós
o que sabemos ser nosso

pois
o Rio de Janeiro nos faz acreditar que a vida pode ser boa
e sobretudo, que toda poesia não vale nada

*este poema contêm citação do escritor Rafa Carvalho

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

o político e o poeta


a diferença entre o político e o poeta é
que o
político
não se interessa por qualquer pessoa, e
o poeta
se interessa por todas

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vênus in Chamas


Vênus saiu das águas numa manhã de Sol muito forte em Copacabana. De repente, algo ocorreu na praia, algo peculiar. As pessoas, homens e mulheres começaram a observar aquela moça. Tão bonita em sua beleza irretocável, era algo simplesmente diferente, extasiante. Ela era muito mais bonita do que qualquer banhista, modelo, atriz ou vizinha de condomínio. Um corpo perfeito, um cabelo que começou a secar ao sol e que formava um volume que realçava seus olhos e rosto. Ela era o desejo em pessoa. Ao ser vista, pensamentos ardentes se materializavam no ar. O seu jeito era febril. Ela era etérea e significava simplesmente, tudo. Era impossível não olhá-la ao caminhar atravessando a areia quente.
Ajoelhou e disse a um rapaz - atônito, ele tremia.

Posso pegar seus chinelos.
São da minha mulher... mas pode sim
E a canga?
Claro, leva.

Continuou seu desfile, num gingado sublime.
Passou na barraca e pegou uma água de coco. Simplesmente apenas tocou o balcão e sorriu aos freqüentadores.
Ao chegar ao calçadão, o trânsito foi seu mar na cidade.
Distraída, passeou seus chinelos e dedos delicados pela vista dos retrovisores e vidros fumês, e os motoristas – ah! os motoristas !!! – eles começaram parar, descer dos carros e filma-la.
A claridade da manhã incidia sobre o caos fazendo tudo ficar leve pueril e simples. As mazelas os defeitos as raivas os pecados os segredos e as desgraças, e também os medos, tudo se dissipava ali, na instância daquela mulher.

Aos poucos, uns passos rápidos às suas costas surgem.

Ei ei minha mulher quer os chinelos dela de volta, e a canga
Os chinelos...?
É sim, sim

Ela o olha, ele não resiste
Ele a beija eles se beijam
Que isso você ta beijando essa mulher, que porra é essa

Eles se separam
Que putaria é essa porra
Nada ... nada... você é linda demais, meu Deus


Ele se ajoelha e pega sua mão
ela sorri
Ele treme sua mulher o bate
ele sorri

Que que ta acontecendo aqui (um mortal pergunta)
Essa mulher aí ta tirando a roupa no calçadão, ta doida ficando pelada (uma outra mortal diz)
Essa mulher ta mexendo com o meu marido ( a mulher dele diz)

Os olhos esbugalhados da multidão e o sorriso de Vênus se degladiam.
Eles venceram ela.
Todos querem se aproximar, ver de perto, sentir o cheiro, poder observar detalhes, nuances, pintas, formas. Há muitas vozes no ar (mortais), um turbilhão de pessoas toma o espaço em volta dela, e Vênus é tocada, beijada, acarinhada, arranhada, esmurrada, quebrada e feita em pedaços, em poucos minutos.

Alguns saíram com nacos do seu corpo envoltos em suas camisas, correndo pela avenida e sendo perseguidos por outros menos afortunados, uns levaram suas partes ao mar e nadaram até o meio do oceano atlântico pra morrerem loucos apenas pra ficar na exata solidão com seu pedaço ideal dela; fosse uma mão apodrecendo do sal quente do mar, ou uma parte do seu lábio inferior e queixo, cova e pele morta.

Isso foi numa manhã em Copacabana...
O fato não repercutiu.
Foi hedonismo supremo.
Todos os envolvidos negam e ficou o pensamento pra quem não conseguiu sua parte da deusa; mesmo se indignando com os estupros e casos de pedofilia nos telejornais, a vaga idéia “- mas dela eu devia ter arrancado um pedaço”

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011 de Iemanjá


O ano finda e algo se inicia
cíclico caustico expurgando dor e febre
e esbravejando sob a noite de Iemanjá

"renascer ou coincidir?
perpetuar ou migrar?
retornar ou insistir?”

Ano feminino dentre tantas coisas de mulher que existirão nesses
nossos próximos dias

E também dos que nasceram aos sábados
dos que gostam de mar
e tanto quanto
dos que andam ao lado dos Santos de camisa aberta

um ano pra não se esquecer

e ser feita
sua lenta maquiagem
[doce delicada sutil e decidida
no rosto nu dos dias que virão
e depois de pronta
beijar sua boca

senhora, dona, moça, dama, santa, puta, louca, deusa
um ano das mulheres e seus homens

digo isso de improviso e desacerto

não sei
nunca soube nada mais do que você mesmo sabe
sobre as profundezas do desconhecido

só fiquei pensando, por um tempo
que de tudo que ouvi em 2010
que me pegaram foram
elas

Karine, Julieta, Vanessa, Alessandra, Céu
Karina, Tulipa, Mariana, Marina
Nina, Laura, Luisa, Roberta
Etta, Elza
Ella

Portanto, e definitivamente
nesse 2011 vou ouvir
muito mais
elas

as mulheres...

#

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

de trompetes e bonsais



Ele era preto
Ele gostava de bonsais
Ele era bonito
Ele tocava trompete

Meu amigo morreu

Ele me deu uma cachorra
Nós tomamos chá de cogumelo
Ele sabia o mapa das estrelas e suas constelações
Nós viajamos pra terras de Dona Beija

Meu amigo morreu

Ele tinha os olhinhos apertados
Nós fizemos farra e tocamos fogo numa cama em cima do telhado
Ele me falava sobre falésias e os desertos de Atacama
Nós dividimos conta de bar

Meu amigo morreu

Ele me conquistou
Nós fizemos músicas
Ele se apaixonou
Nós amamos juntos

Meu amigo morreu

Ele pulava de pontes e atravessava rio a nado
Nós não sabíamos mentir
Ele inventava solfejos
Nós jogávamos poker e carteado

Meu amigo morreu

Ele gostava de mim
Nós fizemos músicas
Ele sabia que eu gostava dele
Nós escrevemos poemas

Meu amigo morreu

Ele era preto
Ele gostava de bonsais
Ele era bonito
Ele tocava trompete

Ele não está aqui mais...

Meu amigo morreu


para Ederval

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teste...um...dois...três...testando


casas velhas
velhas lembranças
lembranças boas
boas idéias
idéias loucas
loucas moças
moças belas

belas pernas
pernas perfeitas
perfeitas noites
noites escuras
escuras fossas
fossas profundas
profundas festas

festas imensas
imensa dádivas
dádivas eternas
eternas visões
visões simples
simples mente
mente aberta

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Maçãs


"o seu rosto também tem formas expressivas
sendo assim, eu poderia dizer que, quando você sorri
oferece dois pecados mortais
a nós

suas maçãs"


#

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Mostra Literária da 7Bienal da UNE


Mostra Literária da 7ª Bienal da UNE que rola de 18 a 23 de Janeiro no Rio... Tamo lá.
http://www.bienaldaune.org.br/

O poema é este aqui
"Meus últimos dias em Sodoma..."
http://hotelsete.blogspot.com/2010/01/meus-ultimos-dias-em-sodoma.html

Vamo nessa ... vamo nessa.
Morro do Vidigal e Complexo... Utereré


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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

BG


#
BG
Bicho Grilo
Borboletas, Gente!
Beijos Gerais
Barbas Grandes
Bitucas Guimbas
Bocejos Gemidos
Balanço Gingado
Balé Gafieira
Brincadeira Game
BG
ei!

.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Tome uma com Charles Bukowski...




#
Hoje, minha principal influência sou eu mesmo. A medida que vivemos, caímos e somos destroçados por várias armadilhas. Ninguém escapa delas. Alguns até mesmo convivem com elas. A idéia é se dar conta de que uma armadilha é uma armadilha. Se você está numa e não se dá conta, você está fodido. Acho que me dei conta na maioria das minhas armadilhas e escrevi sobre elas. É claro, nem tudo o que escrevi foi sobre armadilhas. Existem outras coisas. Ainda assim, alguns dizem que a vida é uma armadilha. Escrever pode ser uma armadilha. Alguns escritores tendem a escrever o que agradou seus leitores no passado. Daí, estão fodidos. A criatividade da maioria dos escritores tem vida curta. Ouvem os elogios e acreditam neles. Há apenas um juiz final do que foi escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado. E, é claro, quando for influenciado por sua fama e sua fortuna, você pode mandá-lo flutuando rio abaixo junto com a merda.
Cada nova linha é um começo e não tem nada a ver com as linhas que a precederam. Todos começamos como novos, a cada vez. E, é claro, isso não tem nada de sagrado. O mundo pode viver muito mais facilmente sem livros do que sem encanamentos. E alguns lugares do mundo quase não têm nenhum dos dois. É claro, preferia viver sem encanamento, mas preciso dele porque estou doente.
Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o Palhaço nas Trevas. É engraçado. Mais uma linha...

Charles Bukowski

sábado, 27 de novembro de 2010

Sobre escrever ...


Escrever sobre guerras e velas derretendo
Sobre jogos de hóquei e corridas de carro
Escrever sobre os padres e as putas
Escrever sobre a ciência e a religião
Sobre cursos de cinema ou origami
Escrever sobre remédios e insônia
Escrever sobre livros e burocracia
Escrever sobre noitadas extremas
Sobre jogos lotéricos e tele-senas
Escrever sobre amizade e desejo
Escrever sobre sorrisos e missas
Sobre desvios de personalidade
Escrever sobre música e poesia
Sobre acordar no meio da noite
Sobre a seda e seus toques sutis
Sobre mulheres e seus homens
Escrever sobre infernos astrais
Sobre sexo, drogas e rocknroll
Sobre dilúvios e rituais pagãos
Sobre pôr do sóis e pescarias
Escrever sobre tempestades
Escrever sobre nascimentos
Sobre a primavera de Praga
Sobre botulismo e infecções
Sobre tragédias e acidentes
Sobre banheiros e navalhas
Sobre os amores perdidos
Sobre colchas de retalhos
Escrever sobre os mortos
Escrever sobre multidões
Sobre os conflitos do Rio
Escrever sobre mentiras
Escrever sobre musicais
Escrever sobre o samba
Sobre a verdade velada
Escrever sobre as sinas
Escrever sobre bebidas
Sobre preces e orações
Escrever sobre o ódio
Escrever sobre o caos
Escrever sobre o ócio
Escrever sobre beijos
Escrever sobre o jazz
Escrever sobre o mar
Escrever sobre a fala
Escrever sobre filhos
Escrever sobre a luz
Escrever sobre o pó
Sobre os sonhos
Sobre os deuses
Sobre solidão
Sobre o amor
Sobre o fogo
Sobre o falo
Sobre você
Sobre nós
Sobre fé

sobre
#tudo
sobre
todos
nós

.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O sol, nossos beijos e as estrelas



#
Sonhei conosco “sis” dias

Você com uma camiseta do Nirvana
eu de jaqueta e calça jeans

Sentados, cercados de amigos, numa mesa de bar
falávamos sobre política e sobre o Obama
e bebíamos cerveja e batida de cajuzin

Não nos beijávamos
no sonho apenas nos olhávamos como se algo ainda fosse vir a acontecer
e te convidei pra se levantar e vir comigo

Subimos as escadas até a cobertura pra ver a noite
toda sua profundeza negra
e a vastidão das estrelas
já mortas
que piscavam pra nós seus olhos de meretriz

Enciumadas por você estar ali tão perto delas tão alta a ofuscá-las
em protesto pela injusta competição, pararam de brilhar
e fizeram tolas, da noite seu rápido fim
Recolheram-se as estrelas, ao mirar em você
com tremendo assombro
mais luz que em bilhões delas

Foi-se a noite e veio assustado e surpreso o Sol emanar seu dia

Descemos então pra rua a caminhar e só então nos demos as mãos
E entre os carros e os passantes fiz questão de lhe dizer
num beijo
meu desejo de você

O comércio parou pra ver
pessoas aplaudiram
e os jornais do dia seguinte noticiaram nosso beijo na TV.

“Que bonito!
No Fantástico os amantes se beijando.
Desse crime podemos morrer!”

E o Sol invejoso de mim, ao me ver ao lado seu
esquentou suas veias e fez da manhã um fim de tarde ardente
e foi preciso fugir e nos esconder por um tempo
pra que o Sol acalmasse sua ira e flanasse vagaroso
seu costumeiro hálito de mormaço
e seu silencioso rugido quente

Te dei uns óculos escuros
pra te proteger
do olhar fumegante do meu rival enciumado

Dizia ele em delírio e febre
que desde tempos remotos brilhava sobre esta
Terra
fazendo árvores, plantas, florestas densas
animais e seres humanos
respirarem
só pra fazer você existir

Que relação perigosa, essa nossa
O Sol, possessivo de você, ameaça varrer o mundo em labaredas
As estrelas despeitadas do seu brilho
morrem fugazes e se apagam a milhões de km de distância
ao te verem ao meu lado
Sinto que o mundo corre perigo fatal de se extinguir devido simplesmente aos nossos beijos

Já eu
o único perigo que lhe ofereço
é que você fique no bar e queira beber mais um pouco
quando me ver chegar

Mas que o Sol saiba desde já
que de agora em diante
brilhe sua flama por outras saias
ou que ilumine a nós dois
descontente ou desesperado.

E que as estrelas que se contentem
frente à sua luz
com seu brilho extinto e mirrado
pois se eu não puder mais te beijar
que se foda o Sol
as estrelas
e que o mundo inteiro
então
suma apagado ...

.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

São Jorge terça-feira 23 - parte IV



Recebi um cartão postal hoje com uma foto do Corcovado, dizia assim...

“Caro Robisson
Não poderemos nos encontrar hoje. Estou no Rio de Janeiro. O bicho ta pegando aqui. Nos vemos em breve. O escapulário da sua amiga chega logo, pelo correio.
Se cuida meu brodi.

Grande abraço
São Jorge”


.

domingo, 7 de novembro de 2010

um postal do fim do mundo




Um dia
quando sobrar nesse mundo só o som das coisas que não existem mais
e as nossas pegadas rasas na areia
e o som das nossas vozes afligindo os últimos répteis resistentes
sob o sol de 50 graus
e
meus ossos esturricando no chão árido d'onde antes foi cerrado ou inverno
me lembrarei de você
e de mim
tomando banho de mangueira no meu quintal

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Jambolada




Dias de outubro
Dias de reencontro
Sangue correndo rápido nas veias sob o sol quente da tarde ou a chuva fina da noite
Dar o ar da graça, se reencontrar consigo e se perder com os outros

A vida podia sempre ser celebração
Ser uma Jambolada ser um Festival
Dançar, ver amigos, reencontrar amores, descobrir amores
Deixar a música suar sua pele

Bela despedida
Belo recomeço
E o fim só termina quando algo se inicia
Cíclico, vai doendo um cadiquim e vai ficando a saudade

Ao mesmo tempo coçam a palma da mão, a dúvida e o desejo
O que será agora
O que vem por aí
Restando entender que se a festa existe dentro de nós
Basta agora saber levá-la de mãos dadas por aí

_ Oi essa é a minha namorada.
_ Olá tudo bom?
_ Tudo.
_ Como é seu nome?
_ Festa.

Porque nessa vida, no final das contas, o troço todo gira em torno do amor.
E a Jambolada sempre foi um lance de amor.
Amor pela música e pelas pessoas.

Daí de agora em diante a gente continua nosso caso, nossa transa... como em todo caso de amor.
.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OUT




Sobre o mês de outubro, me veio à mente agora que ele é

OUT

é fora
é do lado de lá
não é aqui
o mês de outubro diz pra ir pro outro lado
ir por ali
“abrir a outra porta”
o mês de outubro tá nadando pelado no riachinho, pulando a cerca do curral, roubando beijo no recreio, mentindo idade em show de rock
o mês de outubro já buliu com prima, já roubou manga, já rodou carro
apertou a campainha e saiu correndo
o mês de outubro não é clean, é sujo e usa calça rasgada
mês de outubro é desprendimento e espontaneidade e primavera
mês das crianças, da curiosidade, do mal feito, da risada, da busca, da brincadeira
mês da jambolada
mês do congado nas ruas fazendo festa e desafinando o coro dos contentes

o mês de outubro é de música e é de amor
p’ra preparar o santo pra salmoura de fim de ano
p’ra quando suas costas forem castigadas na troca das oferendas

então pule fora

onda errada
ou
papo chato
drop’out

abrace seu próprio ombro
ou
outubro
ou nada

.

Evitar a morte




o encontro
a clarividência
a porta aberta
o insigth

evitar a morte dentro de noites extremas

e à noite
surrupiar a dança
pedir arrêgo a vida e denunciar o acaso
dizer pra sempre que não é mais

e de dia
batucar na mesa do bar aquela canção perdida
e num longo sorriso amigo desvendar a exata charada

negar a morte ao realizar ritual místico e estranho de se irmanar com o desconhecido
despido de roupas e vestido de seus ridículos

eu
pago pra ver


.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)





Texto inspirado na canção do disco “África Brasil” de 1976 de Jorge Ben
Pra baixar o disco vai aqui ô
... http://nobrasil.org/0358-jorge-ben-africa-brasil/


Praia do Leblon
Domingo de Carnaval de 1976


_ Porra Africano, toca essa bola.
Africano com um meio sorriso no rosto, finta um, dois, três antes de chutar no gol, o goleiro se esforça e joga a bola pra escanteio.
_ Vai ser fominha hein negão.

Africano tem 18 anos, preto como petróleo, seus antepassados Bantos vieram em navios negreiros e foram escravos no interior da Bahia. Ele é de falar pouco e quando joga bola arrebenta. Juvenil do Flamengo, espera sua chance no time principal. Ele sabe que vai chegar sua hora. Todos sabem.
O escanteio é batido, um jogador cabeceia, o goleiro espalma, a bola sobra para Africano. Ele podia chutar de primeira, mas traz a pelota pra perto de si, a mata lindamente como se a bola estivesse suavemente colada aos seus pés descalços e calejados da areia quente da praia. Dá um cortezinho pra esquerda, olha rapidamente de soslaio por sobre o amontoado de jogadores à sua frente e bate pro gol. A bola caprichosamente passa por todos. Morre na rede do lado direito do goleiro, que apenas olha.
No caso de Africano a bola não morreu na rede, nasceu.
Ele sai gargalhando a passos largos, com suas pernas esquias de canelas duras moldadas no sobe e desce das escadarias do morro.
3 a 0.
Próximo time.
A pequena torcida que assiste, aplaude o golaço. Ele imagina os mesmos aplausos vindos das arquibancadas do Maracanã, num jogo de final.
Sai do campo em direção ao mar, pra dar um mergulho.

_ Porra negão vai afinar é ? Não vai jogar mais ?
_ Não.
_ Bichinha.
_ Vai se foder Boiadeiro.

Boiadeiro é amigo do Africano desde moleque, e mesmo sendo quatro anos mais velho, era o amigo, mais forte e malandro, que o defendia nas brigas de rua. Trabalha no Jóquei Clube, cuidando dos cavalos, coisa que detesta.
“Só grã-fino, que acha que o mundo parou pra eles. Gente metida.”
Sonha em mudar de vida, juntar dinheiro e ir com a mulher e as duas filhas para o Mato Grosso, estado onde nunca esteve mas que seu pai conta aos quatro ventos ser o lugar mais lindo do mundo. Mexer com coisas de vaqueiro, cuidar de gado e não ficar limpando a bunda de cavalo de madame. Se o Rio é a cidade, o Mato Grosso é o Estado Maravilhoso. Ao menos pra Boiadeiro.

Saindo do mar, em direção ao Quiosque de São Vitor, o papo dos dois descamba na rivalidade Fla x Flu.

_ Porra, o Maracanã chama Mario Filho porque ele era torcedor do Fluminense. O Chico é Flu. Dolores, aquela gostosura minha vizinha é Flu. Poxa, o Flamengo saiu do Flu amigo. Não adianta, vocês tem de pedir “bençá” pra nós.
_ Que nada rapaz, Flu é time de grã-fino igual àqueles que tu tem de babar ovo nas corridas do Jóquei. Mengão é time da massa. Gente pobre igual à gente tem de torcer pro Flamengo. Você acha que eles aceitam qualquer negão lá no Flu. Tem de ser filho de empregada de algum cartola pra jogar lá.
_ Ah para com isso Africano, você não sabe do que está falando. Fluminense é povão, primeiro time do Brasil.
_ Ah isso não, você tá por fora mesmo Bóia. O primeiro time é o Vasquinho porra. Já veio com os portugueses, chegou aqui e tomou de 4 a 0 do time dos índios, que nem sabiam jogar bolar, só pegar coco.

Hahahahahahaha.

Os dois caem na gargalhada que não se agüentam e sentam pra tomar uma cerveja.

Ao longe, em alto mar, fora da arrebentação, na calmaria do oceano, um solitário surfista sentado em sua prancha retira do bolso do short um saquinho plástico muito bem vedado, onde há um isqueiro e um baseado. Acende e observa, em silêncio, toda a cidade do Rio de Janeiro à sua frente, tendo como testemunha apenas a maresia do Atlântico e seu imenso amigo sol.

..........

domingo, 19 de setembro de 2010

Máquina de escrever - Pedro Luiz e a Parede




vejam o vídeo no iutubi
é do caralho, vai por mim ... rsss tá aí o link

http://www.youtube.com/watch?v=QZKwS0Xylc0

(Mathilda Kovak e Luís Capucho)
Meu Coração é uma máquina de escrever
As paixões passam
As canções ficam
Os poemas respiram nas prisões
Pra ler um verso, ouvir, escutar
Meu coração falar
Até se calar a pulsação

Meu coração é uma máquina de escrever
No papel da solidão
Meu coração é
Da era de Guttemberg
Meu coração se ergue
Meu coração é
Uma impressão
Meu coração
Já era
Quando ainda não era
A palavra emoção

Mas há palavras no meu coração
Letras e sons
Brinquedos e diversões
Que passem as paixões
Que fiquem as canções
Nos poemas, nos batimentos
Das teclas da máquina de escrever

Meu coração é uma máquina de escrever
Ilusões
Meu coração é uma máquina de escrever
É só você bater
Prá entrar na minha história.

.

Mão e luva - Pedro Luiz e a Parede




vejam e ouçam no iutubi

http://www.youtube.com/watch?v=wIyGjMtvrAU

(Pedro Luís)

dia de chuva
tão triste e tão bom
no espelho um recado de batom de uva

era o fruto feliz
da noite passada
você foi embora
acordei e nada

luva e mão, mão e luva
vamos passear de guarda-chuva
mão e luva, luva e mão
nosso encontro parecia perfeição

vamos voltar o relógio
fotografar os segredos
quero você como um credo
vamos nos dar privilégios

meu sol
pingos na calçada
sou só chuva e lágrimas
vem já
antes que anoiteça
tecer noites e páginas

luva e mão, mão e luva
vamos passear de guarda-chuva
mão e luva, luva e mão
nosso encontro parecia perfeição

.

sábado, 18 de setembro de 2010

Maryllu

Essa é minha amiga


Maryllu


http://maryllu.wordpress.com/



Adoro seu despudor

Se mulher eu fosse,
eu seria como ela

Iríamos disputar os mesmos rapazes.



Leiam-na

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Namoro




Compromisso é gostar nas Quartas
ir às profundezas nas Sextas
apaixonar nos Sábados
e não esquecer de ligar nas Segundas.

Desprendimento é dançar na chuva até sentir frio
e aí sim tirar a roupa.

Desinibição é romper o desconforto com desconhecidos dizendo simples “oi”.
Gosto é lamber até doer a língua. Sexo é quando você é você.

Tesão é comê-la de colherinha.Vontade é não evitar falar.

Saudade é
destampar garrafas vazias
mas plenas do seu cheiro.

Gozar é evitar a morte

... e morrer.

.

A Extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakowski no verão da datcha




Vladimir Maiakowski 1920
(trad. Augusto de Campos)





A tarde ardia com cem sóis.
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava no ar e nos lençóis da datcha onde eu estava.

Na colina de Púchkino, corcunda, o monte Akula, e ao pé do monte, a aldeia enruga a casa dos telhados.
E atrás da aldeia, um buraco e no buraco, todo dia, o mesmo ato:
o sol descia lento e exato.
E de manhã outra vez
por toda a parte lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia isto começou a irritar-me terrivelmente.

Um dia me enfureço a tal ponto que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
"Desce! Chega de vadiar nessa fornalha!"
E grito ao sol:
"Parasita! Você, aí, a flanar pelos ares, e eu, aqui, cheio de tinta, com a cara nos cartazes!"
E grito ao sol:
"Espere! Ouça, topete de ouro, e se em lugar desse ocaso de paxá você baixar em casa para um chá?"

Que mosca me mordeu!
É o meu fim!

Para mim sem perder tempo o sol alargando os raios-passos avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas, pelas portas, pelas frestas, a massa solar vem abaixo e invade a minha casa.

Recobrando o fôlego, me diz o sol com voz de baixo:
"Pela primeira vez recolho o fogo, desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá, pegue a compota, poeta!"
Lágrimas na ponta dos olhos - o calor me fazia desvairar - eu lhe mostro o samovar:
"Pois bem, sente-se, astro!"

Quem me mandou berrar ao sol insolências sem conta?
Contrafeito me sento numa ponta do banco e espero a conta com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade fluía sobre o quarto e esquecendo os cuidados começo pouco a pouco a palestrar com o astro.
Falo disso e daquilo, como me cansa a Rosta, etc.
E o sol:
"Está certo, mas não se desgoste, não pinte as coisas tão pretas. E eu? Você pensa que brilhar é fácil? Prove, pra ver! Mas quando se começa é preciso prosseguir e a gente vai e brilha pra valer!"
Conversamos até a noite ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos, os dois.
Logo, com desassombro, estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
"Somos amigos pra sempre, eu de você, você de mim. Vamos poeta, cantar, luzir no lixo cinza do universo. Eu verterei o meu sol e você o seu com seus versos."

O muro das sombras, prisão das trevas, desaba sob o obus dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz, chamas por toda a parte.

Se o sol se cansa e a noite lenta quer ir pra cama, marmota sonolenta, eu, de repente, inflamo a minha flama e o dia fulge novamente.

Brilhar pra sempre
brilhar como um farol
brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar
que tudo mais vá pro
inferno

este é o meu slogan

e o do sol.

...................

1. Datcha - casa de veraneio.
2. Versta - medida itinerária equivalente a 1,067m.
3. Rosta - A Agência Telegráfica Russa, para a qual Maiakovski executou cartazes satíricos de notícias - as "janelas" Rosta -, de 1919 a 1922.


....................

poema dos meus prediletos...
que mais dizer.



.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

dos restos de 2009




Dia amanhecendo
escutando John Coltrane
lendo um livro que já li
janela do quarto aberta
vento frio
sem camisa
morto de fome
penso num mistoquente
são seis horas da manhã de dezembro
o ano acabou
entre tantas outras coisas que acabaram nesse doismilenove

sábado, 4 de setembro de 2010

Três anos de Hotel Sete ...




Sábado, 21 de Agosto



Acordei
Lavei o rosto
Passei no espelho o resto da noite que existia sob os olhos e minhas olheiras ...

Do bolso da calça tirei a chave do meu quarto
antes eram ácidos ou outros
Me dei conta que hoje já sei onde durmo
e que quando cheguei aqui me perdia nos andares

Hoje abro as portas e indico os quartos pros novos inquilinos e novatos

Percorri o corredor e desci as escadas
Passei a mão no jornal do dia

Na rua o mesmo trânsito iniciando sua transa, seu vai e vem
E eu, complexo transeunte, relembro minha primeira noite aqui dentro


http://hotelsete.blogspot.com/2007/08/nusea.html


A cabeça dói
Tudo a sua volta gira, se movimenta
Seu próprio estômago soca sua garganta
Golfadas de vômito
Engulho e dormência nas pontas dos dedos dos pés
E esse sol intenso desequilibrando as paredes e o teto

São apenas 7:47


Depois disso foram muitas festas, encontros, brigas, amores e noites bem vividas e mal dormidas

Certas madrugadas, às vezes pra incomodar a justa serenidade do sossego do quarto, caminhava pelos becos e circunvizinhanças as duas, três horas pra alegrar os notívagos e arriscar minha vida, sempre obviamente com a carteira vazia...

Do meu quarto compus meu livro de poemas, escrito hora em caneta tinteiro envenenada, hora em máquina Remington enferrujada, relíquia do meu avô e destruída por amigos eufóricos

Adoro presenteá-lo a desconhecidos e freqüentemente avisto, na esquina, dois mendigos folheando as páginas dos Poemas Ácidos e eles me acenam fervorosamente quando passo e balançam o livro nas mãos dizendo algo sobre algum poema que vêm lendo.
Eles se levantam e rumamos ao bar para tomar um café
Sempre pago... lógico

Ocasionalmente, aconteciam fantásticas jam’s musicais, onde compúnhamos canções e rocks, fumando cigarros e olhando o som da cidade pelas janelas abertas, surgindo assim uma banda que veio a gravar um disco empoeirado que é tocado no saguão central do Hotel numa velha vitrola de 1958, nas noites de sexta pra alegrar os inquilinos mais idosos, que reclusos preferem o conforto das poltronas, seus chás, dominó e gamão

Nesse interím fui conhecendo outros escritores, que sem lar vieram alugar quartos no Hotel e mesmo outros artistas que sublocaram todo o Subsolo do prédio

Com esses fiz mais amizade e por muito tempo morei junto a eles nos porões, confabulando e perpetrando nossa nova confraria, mas pelo que sei se mudaram para apartamentos na Rua Augusta, em São Paulo.

Nossas intenções não eram de forma alguma muito nobres, sobretudo, porque ademais queríamos ser lidos, fato que em si só, contrariava uma premissa do status quo, que é evitar o conflito
Começamos motivados a realizar leituras e festas, organizar encontros, zines e ...

Mas esperem aí, já estou me estendendo e estou atrasado, deixe eu ir trabalhar para descolar uma grana porque hoje é dia 21 ...
e tenho que pagar o aluguel
...

domingo, 25 de julho de 2010

Destino : autor desconhecido




Peguei estrada às 7 da manhã.

Novamente o puro autoconhecimento da estrada. Mas sei também que há junto comigo, enormes amigos sobrevoando meus passos . Sempre.

Não digo sobre a solidão que existe no coração, quando se apaixona por alguém que não se apaixona por você, ou quando acaba um namoro ou "affair".
Nem talvez a solidão dos ônibus coletivos ou metrôs, cercado de pessoas todas imersas em si, evitando encontrões ou disputando bancos e poltronas.
Nem mesmo a solidão geográfica do estranhamento ao se deparar numa outra cidade em nova faculdade ou emprego.

Digo sobre a transcedental e fantástica solidão ao estar só e ao mesmo tempo confiante e de mãos dadas com o acaso, da permissividade consentida para que o destino aja em sua vida recolhendo as oferendas predispostas na trajetória dos dias.

Há de habitar em si o signo da oportunidade e instituir como bandeira, cravada nos ombros, a aritmética imutável do tempo considerando o futuro equação indivizível.

O futuro é sempre 10 dividido por 3.
Infinito.

O passado é 2 mais 2.
Concreto.

A estrada, portanto, destila sobretudo a máxima... "nada será como antes".

Nasci em Janeiro sou de Aquário, mas ultimamente o signo que profeça minha vida é o desconhecido. Distraído, andava em falta com meu velho amigo. No fim, ele sempre esteve comigo, e eu relapso, não intuía que meu DeuS sempre foi ele.
Erroneamente, rezava por terreiros e catedrais, ajoelhado e imbuído sobretudo de saudade. E saudade sempre tem a ver com o passado.

Foi quando ela me disse, roçando os dedos no meu rosto.

_ Pra que isso menino? Veja que vontade e desejo,inversamente, sempre sugerem e apontam para o futuro.

Sorri, me levantei, pus meus colares no peito novamente e continuei a caminhar.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

África




vou me embora pra

África

lá será minha

Pasárgada

torcer com

Gana e Eto'o

e renascer na terra

onde morreu

Rimbaud

domingo, 13 de junho de 2010

13 poemas ácidos ... 1 ano




Não é motivo pra soltar foguete, nem mesmo juntar toda a família na sala, mas hoje faz 1 ano que caía nas “más línguas” e na boca do povo, meus 13 POEMAS ÀCIDOS NO BOLSO DA CALÇA. Poesia bandida, marginália enrustida, provocação e desejo.

Eu já não digo mais sobre esse livro bastardo. Ao encontrá-lo nas vielas escuras e portas de banheiros sujos, aviso aos navegantes “LIVRO DE TARJA PRETA, LEITURA SOB LIVRE ARBíTRIO”.

Que rememorar hoje não seja o caso. Skylab, Testa, Juanna, Goma, Casa da Cultura, Coletivo Subsolo, um monte de amigos e a madrugada abraçando-nos. Escrevê-lo foi prazeroso, esforço tremendo para merecer aquela deliciosa orelha “a la Zoppa”. Hum!!! Fez valer a gorjeta do garçom.

Do meu quarto de HOTEL disponibilizo o livro em arquivo PDF, versão revisada para a verve dos incendiários.
Cuidado com os fósforos.

http://rapidshare.com/files/412204961/13poemas_miolo.pdf

Taí o link

O livro pode ser encontrado no
Goma, Sebo Maravilha, Livraria Pro Seculo, Livraria da Edufu, Banca de Revista do Bloco 3Q UFU, Black Toi Tatoo, Livraria Despertar ...

Nos vemos por aí...

sábado, 12 de junho de 2010

de profundis




De tempos em tempos ele atravessa a fronteira
e ruma para o “sul de qualquer lugar”, deslizando em audácia festiva.
Imigrante, passa por locais onde em sonho esteve.
Pontua, tatuado em seu braço, as intensas noites de lua cheia, as algazarras, as festas e as indeléveis sensações.
Rememora e ultrapassa pensamentos.

Há sempre solidão ao estar junto a multidões.
Há sempre um dia que pode ser outro, novo.

Infinitamente pesaroso do passado, se alivia aos nascer do sol. Cada um deles agora abre um rasgo em seu peito e inunda de luz sua vida.
Na profundidade da noite escura, enlameado sob o manto das estrelas, circulado pelos anjos da guarda dos vagabundos, se absolve e se perdoa.

Bate um vento frio no seu queixo.
Como um jab d’um boxeador costarriquenho, o perdão atinge seu coração.

sábado, 29 de maio de 2010

1 ano de Deserto Sonora




Há 1 ano, a Juanna Barbêra, banda da qual eu fiz parte, lançava seu disco Deserto Sonora. Logo em seguida a banda se desfez e cada um dos Barbêras seguiu seu rumo. Uns montaram outras bandas, outros se tornaram produtores culturais, alguns se tornaram artistas multimídia, outros foram se internar em clínicas de reabilitação ou mesmo hospícios e outros foram simplesmente cuidar da vida, o que, convenhamos, já é muita coisa.
A música fica no ar.

O CD com aquela capa maluca do Peyote tornou-se "souvenir" de sebos e colecionadores.
Na minha última busca no Mercado Livre, valia uma fortuna.

Confere aí pro seu deleite.

www.myspace.com/juannabarbera

Verão em terras indígenas




Um índio de Pindorama sentado em sua pedra ancestral, observa solenemente toda a vasta terra que o cerca.
Tendo somente como testemunha, ardendo, o sol selvagem sobre sua pele se lembra de sua tribo, de suas lanças, de seus cocares, de si próprio e dos seus.
Se lembra, como que num sonho, de tudo que existiu.

Planeja sem mesmo saber como, seu retorno.
O que lhe resta? A não ser tudo aquilo que lhe cerca?
Porque? Não há resposta no silêncio.

No entardecer sepulcral da floresta, se ouve um grito primal de um índio de Pindorama, solitário e amargurado.
Trouxeram a ele, os homens que caminham sobre as águas, entre tantas coisas que trouxeram; como dor, sangue e morte, uma palavra que mesmo em outros dialetos e idiomas não se encontra ou acrescenta significado.
Trouxeram a ele a solidão e sobretudo lhe apresentaram enfaticamente, e em bom português de Portugal a palavra... saudade.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

23 de abril - Dia de São Jorge




Jorge Da Capadócia

“Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo, meu corpo não alcançará
Facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia, viva Jorge!
Jorge é de Capadócia, salve Jorge!
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Ogam, Ogam toca pra Ogum
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Jorge da Capadócia”

Oração de São Jorge - Jorge Ben

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