sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

São Jorge terça-feira 23


Anteontem terça feira 23 de dezembro
atravessando a rua vi São Jorge montado em seu cavalo
parado no cruzamento da Afonso Pena com a Quintino

Olhos no horizonte
o guerreiro meio perdido estancou frente ao sinal vermelho

Intuitivamente havia de ter percebido
que não era momento de desafiar dragões de aço e ferro que soltavam
não das ventas mas sim das caudas que não tinham
negra fuligem

Sinal aberto, asfalto molhado pela chuvinha fina do verão de fim de ano
avançou entre os automóveis e os pedestres
sem causar furor ou mesmo consternação

Hoje ninguém se importa mais com santos. Qualquer oca celebridade os atrai.

Eu, de alma incendiada pela presença de tamanha entidade
me permiti segui-lo abandonando todas as compras, compromissos e horários
que tinha no centro da cidade

Quando teria a oportunidade de encontrá-lo daqui à eternidade
Da calçada puxei, gritei assunto

_ Ei São Jorge ... ei.
_ Diga rapaz.
_ Cara, um prazer te ver por aqui. O que pretende ?
_ Rapaz, procuro um endereço. Trago relíquias e oferendas da Capadócia.
_ Deixa ver.

Era o Camelódromo Central. São Jorge trazia amuletos e cartas pro chinês que vende tênis e que agora queria abrir uma lojinha de produtos religiosos.Puta globalização mesmo.

_ Te levo, bora lá meu velho.

Estacionamos o cavalo entre os mototaxistas e entramos.
Fiquei de lado e em respeito deixei os dois confabularem por um tempo.
Mesmo porque também não entendia o que diziam, uma mistura de chinês com língua morta.

_ E agora bicho. Já tem de ir ?
_ Não.
_ Legal então vamos dar um rolê. Pode ser ?
_ Sim.

Pensei rapidamente num roteiro bacana pro Santo na cidade de Uberlândia.
Então liguei pra namorada e comuniquei.

_ Pequena, hoje só amanhã. To com São Jorge aqui do meu lado e vamos tomar umas por aí...

No que ela, reticente envolvida às 3 horas da tarde com seu trabalho, nas vésperas do Natal, disse.

_ Tá tá, mas liga pra mim à noite, beijo.
_ Ok . Beijo me liga (piadinha pronta)

Austero, São Jorge não é de falar muito. E eu, devoto cúmplice que sou do alheio silêncio, compactuei com sua discrição.

_ São Jorge meu cumpadre, pena hoje ser dia de chuva, senão nosso passeio começaria pela cachoeira de Sucupira. Coisa linda é o lugar.
_ Ora rapaz não se incomode com o tempo nublado. Diga o caminho.

Meio a contragosto dei o rumo já imaginando a água fria que enfrentaríamos.

Ao pegarmos a rodovia o galope do cavalo riscava de faíscas o asfalto como cobras luminosas ziquezaqueando.
Nos cabelos um vento lindo e todos os carros sendo deixados para traz.
Qual 4x4 seria compatível com a velocidade divina?
Os motoristas com suas famílias, mulheres e crianças batiam a mão pra nós em cumprimento.

Na mesa da ceia de Natal, contariam aos familiares, descrentes, entre uma e outra história.

_ ... e tem mais, nem te conto. São Jorge com um cabeludo na garupa nos cortou perto de Uberlândia. Os meninos estavam dormindo e quando sacudi a Marisa eles já tinham sumido como um raio, é verdade, é verdade...

Para minha surpresa o céu nublado começou a abrir e o sol foi surgindo quente, dando motivo pra ir tirando a camisa. O velho Jorge em sua armadura nem se abalava com o mormaço.

Chegamos à Cachoeira de Sucupira, deserta como deve ser numa terça feira, sua água maravilhosamente brilhante refletindo a luz do sol.
Eu lá me fui dar um mergulho, enquanto São Jorge retirava suas armaduras, mantos e armas.
O cavalo, quieto ao nosso lado, bebia uns goles com muita sede.

São Jorge aparentava uns 50 anos, tinha o corpo forte e cheio de cicatrizes, que preferi não esmiuçar as origens. Nadava bem e logo para meu espanto estava saltando do topo da queda, uns 15 metros no mínimo.

Tchbum !!!
Pela primeira vez o vi sorrir naquele dia.

Nos vestimos e ao irmos embora pediu um minuto. Pensei que o cara ia mijar. Mas não. Atravessou os arbustos e se ajoelhou sobre uma oferenda com duas velas e algumas frutas que alguém havia deixado. Ficou assim por um tempo e depois retornou. Não me dispus a lhe perguntar porque do tal procedimento. Consenti e compreendi que era tarefa e trabalho de santo.

_ Bom agora vamos lá em casa, quero te aplicar um som. Tudo bem ?_ Claro._ Depois vamos num bar perto da Universidade tomar umas. Vou te apresentar pruns amigos que são todos teus fãs.

Ao chegarmos em minha casa, o cavalo não podia, obviamente, entrar. Então o amarramos num poste no terreno baldio da esquina. Ao abrir o portão e passar a chave na porta da sala, me dei conta de que havia um santo em minha casa.

_ Quer um café ? – coisa mais besta de dizer prum santo._ Não.

Liguei o computador. Selecionei o som e equalizei as caixas Satellite.Olhei pro lado e esperei, ainda sim, não esperando absolutamente nada.A música veio como sempre, fantástica.

_ Jorge de Capadócia do disco Solta o Pavão de 1975 do Jorge ainda Ben.
_ É issaí.
_ Tenho todos os Jorge Ben. Deixa o Jorge Ben de lado Robisson. Já conheço tudo. Me surpreenda rapaz. – disse isso se levantando e olhando minha coleção de discos e meus livros na prateleira.

Rolei a lista de reprodução de Jazz.Começou com Charles Mingus estraçalhando em “Moanin”.Bolei um baseado e fumamos, eu e São Jorge, vendo a fumaça subir pelo ar pra fora do quarto pela janela.

Era engraçado como nos entendíamos em silêncio.

Li uns poemas meus que ele parece ter gostado muito. E contei sobre meus planos mirabolantes pra minha vida e de como pretendo lançar meu livro. Obviamente fiz questão de sua presença e o convidei pro lançamento.
Depois de um bom tempo com Charlie Parker, Thelonius e uns outros, decidimos seguir caminho ambos com os olhos vermelhos.

Ao chegarmos ao Bar Verde, havia uma confraria de amigos e conhecidos espalhados pelas mesas, coisa pra mim inacreditável por ser praticamente férias da faculdade.
Acreditei, arrogante, ser um sinal do destino ao reunir tantas almas em torno do que viria a ser o encontro de suas vidas.

São Jorge se sentou e pedimos uma cerveja, uma dose e uma porção de queijo com orégano. Eram 6 horas da tarde e o sol se preparava pra se pôr. Friozinho. Fim de tarde na companhia de São Jorge. Quem acreditaria.O santo, agora mais à vontade, falava sobre guerras e batalhas em terras longínquas e de como havia se tornado o padroeiro da Inglaterra.

_ Mas depois das Malvinas, da Thatcher e agora o Blair e essa merda toda de Afeganistão, desisti daquele povo.

Fazia sentido. Muito sentido. Até porque a Igreja Católica já o havia expurgado do rol oficial dos santos há algum tempo. Hoje São Jorge é um santo rebelde, sobrevive através da fé e da tradição e não deve obrigações nem pede autorização ao Vaticano para o que quer que seja. Bebemos em sua homenagem, mais um marginal a nos abraçar.

Ficamos realmente altos e felizes depois de umas cervejas e doses da boa pinga de engenho. Umas moças se engraçaram com São Jorge, que retribuiu os agrados oferecendo ao violão bonita canção medieval do norte da Capadócia.Disseram elas, ser ele, o macho alfa da nossa mesa, eram biólogas perdidas no Campus Santa Mônica. Querendo um pouco mais de diversão nas suas vidas.

Às 9 da noite decidimos ir embora. O Bar Verde sempre fecha a estas horas, pois o Bairro Progresso, apesar do nome, é perigoso durante a noite. É um antigo loteamento incrustado no hoje mais populoso bairro da cidade, o Santa Mônica. E os donos, Reinaldo e Ronaldo, às 7 da manhã estão de portas abertas. Além do que o Verde mais do que um bar é uma mercearia, ou “Venda”, como diria minha Vó , em que você encontra de tudo. De tudo mesmo, até santos vivos.

Nos despedimos dos amigos entre gargalhadas e abraços e seguimos, os dois caminhando sob uma chuvinha fina, levando pelas rédeas o cavalo.

_ E agora vai pra casa?
_ Sim.
_ Aonde anda morando? Rola uma visita?
_ Você não conseguiria chegar lá.
_ Sei.

_ E você vai pra tua casa?
_ Sim.
_ Te deixo lá sobe aí.
_ Não. Não precisa. Caminhar na chuva é dos meus esportes prediletos.
_ Também gosto. De onde eu venho não chove muito.
_ Então vamos indo.
_ Volto na próxima terça feira 23.
_ É mesmo? Vou olhar na folhinha pra sacar quando será.
_ É em Julho. Antes que eu me esqueça, toma pra você.

Uma medalha e um escapulário.

Estava escrito em letrinhas miúdas; “perseverança ganhou do sórdido fingimento e disso tudo nasceu o amor”.

_ Até nossa próxima terça feira 23, Robisson.
_ Até.


2 comentários:

Giovani Iemini disse...

o dia 23 de são jorge é em abril. sei disso pois é o dia do escoteiro, de shaekspeare e do meu aniversário. hehehe.

espelho de espasmos disse...

Que prosa é essa?
Fiquei de cara.
Se poesia valesse alguma coisa...
Mas virando livro, quem sabe!
A partir de agora, meu velho seu blog vai ser parada para alumbramentos.
Um abraço.