terça-feira, 28 de maio de 2013

Carta de Nelson Gonçalves à Elizeth Cardoso




Querida Elizeth

Você enche meu coração de alegria quando ouço sua linda voz nas ondas do rádio.

Aqui do meu barracão eu vejo as luzes da praia e da cidade, lá embaixo, e sonho um dia ir te ver no Teatro Nacional, cantando pra todo mundo, e eu ali, num cantinho, pensando feliz, que você canta é para mim.

Um dia terei essa coragem de ir lhe ver, sei que você não irá se importar e até poderá me dedicar uma música, se souber que lá estou. Mas sou tímido, não se esqueça, quero apenas o calor de tua música a me esquentar, como um bom café, nas noites frias aqui no alto do morro.

Disse a meus amigos de nosso romance, e que ‘Laços’ é uma música sobre nós dois.

Ainda penso que poderíamos nos encontrar nas tardes de domingo, para um sorvete ou uma volta de bonde, eu juntaria algum dinheiro, economizando nos cigarros e na quentinha da obra; é só disser a Dona Nita, que não ponha mais ovo frito, nem a parca salada, e então poderíamos até um dia, num domingo, talvez o primeiro do mês, ir ao cinema, claro, na matiné, pois sei dar valor a sua virtuosa mocidade e não quero ninguém dizendo sobre moça de família, a passear com rapazote, em noitinhas, vendo fitas de hollywood.

Digo-lhe ainda, minha querida, que ao relembrar os encontros nos bondinhos, recorro sempre à memória, para que nunca me esqueça de teu sorriso, sendo disfarçado, pelas branquíssimas luvas que lhe cobriam as delicadas mãos, deixando à vista somente teus olhos sob o chapéu de importada flanela, e eu, impactado de algo que ainda não sabia o que era, me deixava naufragar nas águas de seus olhos, como miragem de um marinheiro à deriva, sob o sol da tarde de nossa cidade litorânea, inerte e imóvel. Em certo tipo de transe, sentado ao seu lado no bondinho.

Mas somente de lembranças não posso mais viver.

Rezo a Nossa Senhora e a Cosme Damião que me permitam sentir ainda mais de perto, o ar perfumado à tua volta, e que minhas mãos de operário, no dia em que nos vermos, estejam menos tremulas ante sua presença, para que possa acariciar sua face tão delicada.

Uma última notícia minha querida, venci a gagueira ao cantar no botequim nossa canção Laços e me despeço, lhe nomeando Divina, pelas vestes que tão suavemente, em teu corpo caem.
És um ser celeste, não restam dúvidas.

Com carinho

Nelson



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