segunda-feira, 22 de junho de 2009

Tá no Inferno, abraça o Diabo






Dias de caos
Dias de ritos

Sobe a serra e desce morro
Passa por Pasárgada sem tempo de dizer olá ...
Inventa poção milagrosa para aliviar o tédio.

Da sacada do seu prédio escreve poeminha sórdido sobre a bunda da colega de Tai Chi ... pensa ele - “muito zen essa menina!”

Depois de se infiltrar em operação sigilosa no norte da África dá adeus aos diamantes, leões e dentes de sabre
Já não sabe mais se é Vênus ou Plutão seu signo ascendente

Agradecido, envia cartas de despedida aos editores e agentes
Redige, delirante, seu testamento em boletas bancárias

“Contas, contas, quantas contas.”

Lamenta ter tirado seu nome do SPC e pago promisória ao Banco Central
Em represália, envia com as senhas nos versos, sua coleção de cartões de créditos ao alberque municipal
Sugere gastos ilimitados em grandes magazines do centro da cidade

Põe a roupa e se despede, cansado de andar pelado...

Passa por camelôs da 25 de Março, lhes entrega o último talão de cheque ...
Nos bolsos, lenços, nenhum documento e folhas de papel em branco.

O avião pra Andradina já o espera.
Se o encontrarem, pensa, será a morte na certa.
Melhor raspar das pontas dos dedos as impressões digitais.
Entra no primeiro butiquim que vê, e vai ao banheiro. Sai com as mãos enroladas em toalhas, sangrando.
Uma moça lhe pergunta se está tudo bem.
Ele lhe pergunta sobre sexo oral e qual sua opção predileta, na frente ou atrás.
Recebe um grito e quase um tapa, em resposta.

Enfim, se volta pra rua e pega um táxi dois quarteirões adiante.
Dele, ouvi dizer que se tornara peregrino em Alto Paraíso, vendendo as mesmas poções milagrosas que disse um dia ter criado.

Seu nome ainda corre nos bancos de praça de São Paulo, dito entre um causo e outro, pelos velhinhos que jogam dama.

_ Então Agenor, sua vez ... Escuta, e o Gutierrez hein? Nunca mais né.

Constantino Gutierrez, 57 anos, um dos maiores estelionatários e agiotas que se tem noticia ter existido, nesse exato momento lava suas mãos na água d’um riachinho, pensando se era verdade aquele papo de seu pai, peão de roça nos pampas paraguaios, sobre ser o crime algo que não compensa.


Foto de savipe http://www.flickr.com/photos/7707288@N06/488836995/

5 comentários:

Audrey Carvalho Pinto disse...

Adorei, escreves fantasticamente!

Samuel Giacomelli disse...

Texto curtido em pinga de engenho!

Audrey Carvalho Pinto disse...

BOM d MAIS!!! caralho!!

Nina Salomé disse...

o crime compensa, as grades é que não compensam...

Velharia disse...

Um otimo trabalho, possui uma bela cenografia, com cortes onde dá pra se notar enredo e onde o poema se equipara a um roteiro de um curta, tem vozes, personagens e decusões, o que conseguiu foi uma junção poesia- cinema, veja as imagens, comente isso com pessoas, por exemplo: você não acha que essa ideia não seria uma proposta boa para um curta? mostra ele e pergunta pra quem vc conhece, bota uma fé? olha...Este poema é otimo, ele pode ti dar futuramente alegrias.