quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Exame de sangue de Torquato Neto – protocolo 385838

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Ele fez uma transfusão de sangue anteontem.

Me contou.

No resultado do exame, disseram, havia “cacos de vidro, um metro de fio desencapado e poeira”. Encontraram “30% de descartável poesia, um litro de canções inacabadas, duas bitucas de cigarro e ainda um enorme nome indecifrável”. Sugeriram um “tratamento à base de fartas emoções, desencontros e humores alterados. Mudança de ares e alimentação a base de destilados”.

Sua internação foi imediata.

Uma junta médica logo foi chamada para avaliar o estado do corpo já em decomposição. A família foi indagada sobre a possibilidade da doação dos órgãos, afora o coração, já predestinado imprestável.

_ Doaremos, disseram, seus olhos e o lóbulo esquerdo do cérebro, onde guarda suas fantasias e inspirações.

Os médicos diagnosticaram, temperamento obsessivo e períodos de solidão. Indisposição crônica pra vida e grandes quantidades de vontade de viver, convivendo juntas. O nível de glicose e de THC era muito alto.

O hospital das clínicas solicita a demais poetas, amigos e aventureiros que socorram o paciente. Seu estado é gravíssimo.

Tragam sangue novo a este moribundo.

Esperando pelo pior, uma coroa de flores foi deixada no corredor do ambulatório, seu caixão minuciosamente espaçoso foi encomendado com as devidas considerações à cerca do tamanho do seu coração. Imensidão não é algo planejado pelos donos das funerárias e seus marceneiros.

Fez-se uma fila de antigos desconhecidos para vê-lo prostrado na maca, ligado por anfetaminas, tubos e flores nos cabelos. Uns traziam simples folhas de papel em branco, esperando receber um último verso, ou em delírio, uma procuração do enfermo lhes passando seus bens. A namorada, duas sobrinhas e suas pecaminosas memórias.
As enfermeiras se constrangiam ao lhe negarem cigarros, mas lhe afagavam os cabelos, e se entreolhando de soslaio, vez ou outra lhe ofertavam beijos na face rubra.

Jornalistas e biógrafos tentaram entrevistas, todas negadas.
Na TV, especiais e homenagens foram editados para celebrar o acontecimento fúnebre, relembrando ao grande público momentos importantes da sua vida, como quando fez cinco mil barquinhos de papel com seus poemas e os jogou no Tietê. Ou quando incendiou uma tonelada de dicionários por conta da nova lei ortográfica da língua portuguesa. Ou quando promoveu sua grande vernissage em banheiros públicos na oportunidade do lançamento de seu último livro, afirmando serem os mictórios os grandes confessionários da humanidade. O homem na merda. Todo um Globo Repórter foi realizado em sua homenagem, e no Rio de Janeiro duas Escolas de Samba disputam os direitos de cantarem em samba enredo as peripécias do poeta.

Clinicamente, seu quadro foi se agravando, os órgãos inchados e paralisados anunciavam o que todos previam. A comoção nacional aumentava. Praças em pequenos vilarejos sendo batizadas com seu nome. Feriados sendo instituídos nas cidades onde morou. Crianças ganhando seu nome por cartórios em todo o país. Livros didáticos e apostilas começam a ventilar seus poemas nas escolas. Amigos, ex-amantes e até mesmo filhos, começam a surgir, dando suas versões na imprensa sobre sua vida e cobrando seu legado. Uma instituição para artistas desamparados é fundada levando seu nome. No último Fla x Flu um minuto de silêncio é feito em sua homenagem.

Os dias se passam e a calamidade da sua situação piora. Sua morte já é anunciada.

Num dia, bem pela manhã, o poeta acorda, os olhos remelentos, e se lembra que não desligou o gás. Então arranca os tubos, se levanta levando nos cabelos flores, chuta a coroa fúnebre postada no corredor e beija na boca a mais bonita das enfermeiras. Acende um cigarro na falta dum bom baseado e corre, com a bunda de fora, pra pegar o ônibus 132.

O medico diz em entrevista:
_ Para os poetas, parece que as coisas são simples e outras bem complicadas.

Em seu apart-exílio, liga o gás, enfia a cabeça no forno e acende um último cigarro.

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Ode aos Açougueiros

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escrevi um poema sanguinário


chamei-o de “ode aos açougueiros”



já de cara, sem dó nem piedade fui lá e


cortei do poema a perna do p



mandei num envelope pardo a orelha do livro


pedi resgate



não lido, enfiei fundo a faca no coração do til


e vi a cedilha escorrendo sangrando na página



sobrou à minha frente na mesa de aço


um poema manco


[com o coracao


mutilado



.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

pequena hotelaria no interior de Minas Gerais

acordei me lembrando de que havia tido uma idéia fantástica durante o sono, num sonho e que nunca mais iria me lembrar dela.

pena.

dessa forma, sentindo já ao acordar, na ponta da língua já prejudicada pelo fumo excessivo, um gosto de perda, pisei com o pé direito pra equilibrar meu misticismo.
e me dei conta de que minha cama estando localizada no lado esquerdo do quarto, muito provavelmente eu acordaria, pisando todos os dias, com o pé esquerdo.

putz.

invadi o banheiro que não era meu, mas sim do dono do prédio, pois eu o pagava pra poder cagar e escovar meus dentes ao acordar de manhã ou a qualquer hora do dia, depois ter tido uma idéia fantástica durante o sono, num sonho.

eu alugava o apartamento.

como você sua casa e você seu carro.

agora, aquele outro já aluga uma puta. Direto, nos últimos tempos.

aquela outra aluga sua buceta.

...

quando encontrei meu amigo ele me pareceu bem malzão. Sabe. Disse a ele.

- se quiser ajudo cara, vem comigo.

- é pode ser uma boa.


coçando a testa.


- porque tu não ficou naquela outra.

- tem muitos carros lá fora, na rua. o barulho da cidade e o trânsito. o barulho do homem. a máquina. todas elas. as máquinas.

- sei.


já eram 10 horas.
hora de entrar no caixão. vampiro às avessas à cumprir compromisso de sonâmbulo.

Pegar um ônibus dum lugar ao outro é inigualável procissão.
Aceitar os papos, ouvir os silêncios. Muitos olhares e energias. Sempre h'a umas pessoas conhecidas e na maior parte do tempo gente que você nunca mais vai ver.
Pode acreditar.

Por isso prefiro os hotéis.
Neles há camas, chuveiros, sacadas e paga-se também.

E há ainda
uns mesmos outros conhecidos
e na maior parte do tempo a mesma gente que você também nunca mais vai ver.




...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Mate-me quem puder !!! Salve-se por favor !!!


Mate-me quem puder !!! Salve-se por favor !!!
BA MG !!!



tô voltando de Salvador ...
beijos
(Inspirado na biografia do poeta Odirlei Couto)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O pão que o diabo amassou ( eloqüente poema de protesto)

O pão que o diabo amassou, o diabo amassou de sacanagem conosco?

_ “Vai miserável, come essa merda agora ... hahahaha.”

Ou o diabo amassou porque não quis comê-lo, de tão ruim que era o danado, digo, o pão ?

Amassou por imprudência, por descuido na infernal mesa de café da manhã?

_ Ops, desculpe mamãe capeta, amassei o pãozinho com minha pata enferrujada.

Ou por revolta, contra o abuso que é o preço do pequeno francês?
.

Na falta d’um bom título ( outro eloqüente poema de protesto)

Me decidi

Já perdendo meu humanismo
Logo logo serei lacaio do sistema
Nada de chinelo havaiana

Me rendi ao capitalismo
Agora só sapato camurça de pêlo de ema
Ficar rico sem moralismo!
Amigos diriam.

_ Que pena. Perdeu o lirismo!

Segunda, dia ainda escuro, lá me vou

Mas desisti

Quando vi
a fila dava volta no quarteirão
Volto, então, depois do Carnaval pra vender a alma ao Diabo
Eita Inferno mais disputado
Parece o 132 na hora do almoço
Mas dizem que o salário é bom e tem ticket-refeição
Depois deixo meu curriculum pro danado, pro tinhoso
[com a devida carta de apresentação

Jovem próspero e sem um tostão requisita vaga em sua repartição para trabalhos de 6 horas, e que pague em dinheiro corrente. Já lhe avisa que é avesso a chibatadas e beliscões, mas se propõe a extorquir senhoras de idade, e velhinhos solteirões, bem como fazer galhofa e pilhéria da cara de crianças e anões.


Sem mais para o momento, se despede, usando rimas chulas todas terminadas em ão e promete não mais rimar, assim seja na puta que pariu bem como no quinto dos infernos.


E tenho dito...

meus amigos



meus amigos dormiram na rua e em bancos de praça
meus amigos se embebedaram por não terem aonde ir
meus amigos foram garçons, balconistas, entregadores de pizza
meus amigos me ligaram na alta madrugada acordando toda a casa
meus amigos viajaram de carona assoviando canções em postos de gasolina
meus amigos sorriram ao me encontrarem ao leu numa rua qualquer da cidade
meus amigos compuseram canções em bandas escreveram livros

mais

nunca
rezaram missa assim
nunca

mais

meus amigos perderam as finais do campeonato

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Amor Próprio

Amigo meu e eu nascemos um pro outro

Mamamos nestes longos anos nas negras tetas das sagradas vacas da indiscrição, da balburdia, do grito e da gargalhada

Devíamos, sim, escrever um poema a quatro mãos e em duas línguas

Cabelos se entrelaçando

Ele carinhando o dorso da palavra
Eu domando o som dos trovões brandindo meu cálice aos céus

Acreditamo-nos especiais
como todo carinha ou menina, velhote ou coroa, mamífero ou papagaio
deve se acreditar

Uns últimos românticos

Eu sou mais Jorge ele mais Cae

Já me pagou bebida, já lhe chamei pra escrever orelha
Nunca fui a sua casa, ele não visita a minha

Nossa amizade de amor fraterno e admiração, não se junta nas tardes do Faustão
Nos encontramos nos desencontros do acaso
Na intensidade da boêmia

Ele pai de família eu namorado eterno

Se “aqui não pode cantar”, pegamos nossos paus de chuva e rumamos para o Sul
lá não há ainda interventores e lanterninhas

Montou bandinha que deu certo, eu arrisco laraiás com meus grandes amigos

Um dia ainda
Um dia faremos nossa grande canção
Nada de mais, só música de amigos

Mas da mútua admiração vem o empecilho ao deleite, medinho bobo de quem encontra alguém que gosta

Uau !!!
Te gosto muito bicho

Vai remando que eu sopro as velas
Meu peito anda inflado, seguro essa onda
Vai contando casos e piadas sobre as Três Marias
nos distraindo pra sairmos das tormentas e chegarmos a nossa ilhota

Em nossa Pasárgada somos reis, e os súditos somos eu e você

Um beijo

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Jorge Ben

Jorge Ben,
um de meus herois
sem acento e todo erro
cada umas dessas 'e dum disco, vale a pena procurar e ouvir
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AS ROSAS ERAM TODAS AMARELAS

O adolescente, o ofendido, o jogador, o ladrão honrado
Todos sabiam
Mas ninguém falava, esperando a hora de dizer sorrindo

Que as rosas eram todas amarelas
Que as rosas eram todas amarelas
Que as rosas eram todas amarelas
Lendo um livro de um poeta da mitologia contemporânea

Sofisticado, senti que ele era
Pois morrendo de amor...
Renunciando em ser poeta dizia

“ ... basta eu saber que poderei viver sem escrever mas, com o direito de fazer quando quiser.”

Porque ele sabia, mas esperava a hora de escrever que as rosas ...
Que as rosas eram todas amarelas
Que as rosas eram todas amarelas
Que as rosas eram todas amarelas

o adolescente
o ofendido
o jogador
o ladrão honrado
Todos sabiam
Mas ninguém falava esperando a hora de dizer sorrindo
Que as rosas eram todas amarelas


PORQUE E PROIBIDO PISAR NA GRAMA

Acordei com uma vontade de saber como eu ia
E como ia meu mundoDescobri que além de ser um anjo eu tenho cinco inimigos
Preciso de uma casa para minha velhice
Porém preciso de dinheiro pra fazer investimentos
Preciso às vezes ser durãoPois eu sou muito sentimental, meu amor
Procuro falar com alguém que precise de alguém
Pra falar também
Preciso mandar um cartão postal para o exterior
Para o meu amigo Big Joney
Preciso falar com aquela menina de rosa
Pois preciso de inspiração
Preciso ver uma vitória do meu time
E, se for possível, vê-lo campeão
Preciso ter fé em Deus
E me cuidar e olhar minha família
Preciso de carinho, pois eu quero ser compreendido
Preciso saber que dia e hora ela passa por aqui
E se ela ainda gosta de mimPreciso saber urgentemente
Por que é proibido pisar na grama

VELHOS, FLORES CRIANCINHAS E CACHORROS

Deus todo poderoso eterno pai da luz, da luz
De onde provem todos bens e todos dons perfeitos
Imploro vossa misericórdia infinita, infinita
Deixai-me conhecer um pouco de vossa sabedoria eterna
Aquela que circunda o vosso trono
Que criou e fez que tudo faz e conserva tudo
Fazei-me digno enviando do céu prá mim prá mim
Imploro por vós e por Jesus Cristo, por Jesus Cristo
A pedra celestial angular miraculosa, miraculosa
Estabelecida por toda a eternidadeMaravilhosa, maravilhosa
Que comanda e reina convosco
Que comanda e reina convosco
Meu Deus todo poderoso
Meu Deus todo poderoso
Mas eu preciso salvar os velhos, eu preciso salvar as flores
Eu preciso salvar as criancinhas e os cachorros.

DESCOBRI QUE SOU UM ANJO

Não comigo não comigo nunca mais
As coisas agora vão mudar
Pois até um cego pode ver
Que eu não sou o que você diz
Por isso eu não vou mais
Curvar minha cabeça
E nem beijar os seus pés porque
Pois eu descobri que sou um anjo
Eu descobri que sou um anjo
Não comigo não comigo nunca mais
As coisas agora vão mudar
Mantenha distância
Quando eu voltar
Pois quando eu fui o caminho
Era só de pedras e espinhos
Mas na minha volta ele será
Estrela e rosas porque
Pois eu descobri que sou um anjo
Eu descobri que sou um anjo
Não comigo não comigo nunca mais
Mantenha distância
Quando eu voltar
Pois há muito tempo
Que meu amor por você acabou
Olhe não chore pois você chorando
Meu sentimento pode ficar
Com pena de você
E deixar até você gostar de mim
Por isso mantenha distância porque
Pois eu descobri que sou um anjo
Eu descobri que sou um anjo
Pois eu descobri que sou um anjo
Eu descobri que sou um anjo...
Eu descobri que sou um anjo

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sinal dos tempos

Realmente ando ficando velho
Si fim de ano vi o especial do Roberto Carlos e juro que gostei dumas coisas


“Vivo condenado a fazer o que não quero
então bem comportado às vezes eu me desespero ...”


Admitir-se faz parte do auto conhecimento, diz o Budismo



feliz ano nove a todos

São Jorge terça-feira 23


Anteontem terça feira 23 de dezembro
atravessando a rua vi São Jorge montado em seu cavalo
parado no cruzamento da Afonso Pena com a Quintino

Olhos no horizonte
o guerreiro meio perdido estancou frente ao sinal vermelho

Intuitivamente havia de ter percebido
que não era momento de desafiar dragões de aço e ferro que soltavam
não das ventas mas sim das caudas que não tinham
negra fuligem

Sinal aberto, asfalto molhado pela chuvinha fina do verão de fim de ano
avançou entre os automóveis e os pedestres
sem causar furor ou mesmo consternação

Hoje ninguém se importa mais com santos. Qualquer oca celebridade os atrai.

Eu, de alma incendiada pela presença de tamanha entidade
me permiti segui-lo abandonando todas as compras, compromissos e horários
que tinha no centro da cidade

Quando teria a oportunidade de encontrá-lo daqui à eternidade
Da calçada puxei, gritei assunto

_ Ei São Jorge ... ei.
_ Diga rapaz.
_ Cara, um prazer te ver por aqui. O que pretende ?
_ Rapaz, procuro um endereço. Trago relíquias e oferendas da Capadócia.
_ Deixa ver.

Era o Camelódromo Central. São Jorge trazia amuletos e cartas pro chinês que vende tênis e que agora queria abrir uma lojinha de produtos religiosos.Puta globalização mesmo.

_ Te levo, bora lá meu velho.

Estacionamos o cavalo entre os mototaxistas e entramos.
Fiquei de lado e em respeito deixei os dois confabularem por um tempo.
Mesmo porque também não entendia o que diziam, uma mistura de chinês com língua morta.

_ E agora bicho. Já tem de ir ?
_ Não.
_ Legal então vamos dar um rolê. Pode ser ?
_ Sim.

Pensei rapidamente num roteiro bacana pro Santo na cidade de Uberlândia.
Então liguei pra namorada e comuniquei.

_ Pequena, hoje só amanhã. To com São Jorge aqui do meu lado e vamos tomar umas por aí...

No que ela, reticente envolvida às 3 horas da tarde com seu trabalho, nas vésperas do Natal, disse.

_ Tá tá, mas liga pra mim à noite, beijo.
_ Ok . Beijo me liga (piadinha pronta)

Austero, São Jorge não é de falar muito. E eu, devoto cúmplice que sou do alheio silêncio, compactuei com sua discrição.

_ São Jorge meu cumpadre, pena hoje ser dia de chuva, senão nosso passeio começaria pela cachoeira de Sucupira. Coisa linda é o lugar.
_ Ora rapaz não se incomode com o tempo nublado. Diga o caminho.

Meio a contragosto dei o rumo já imaginando a água fria que enfrentaríamos.

Ao pegarmos a rodovia o galope do cavalo riscava de faíscas o asfalto como cobras luminosas ziquezaqueando.
Nos cabelos um vento lindo e todos os carros sendo deixados para traz.
Qual 4x4 seria compatível com a velocidade divina?
Os motoristas com suas famílias, mulheres e crianças batiam a mão pra nós em cumprimento.

Na mesa da ceia de Natal, contariam aos familiares, descrentes, entre uma e outra história.

_ ... e tem mais, nem te conto. São Jorge com um cabeludo na garupa nos cortou perto de Uberlândia. Os meninos estavam dormindo e quando sacudi a Marisa eles já tinham sumido como um raio, é verdade, é verdade...

Para minha surpresa o céu nublado começou a abrir e o sol foi surgindo quente, dando motivo pra ir tirando a camisa. O velho Jorge em sua armadura nem se abalava com o mormaço.

Chegamos à Cachoeira de Sucupira, deserta como deve ser numa terça feira, sua água maravilhosamente brilhante refletindo a luz do sol.
Eu lá me fui dar um mergulho, enquanto São Jorge retirava suas armaduras, mantos e armas.
O cavalo, quieto ao nosso lado, bebia uns goles com muita sede.

São Jorge aparentava uns 50 anos, tinha o corpo forte e cheio de cicatrizes, que preferi não esmiuçar as origens. Nadava bem e logo para meu espanto estava saltando do topo da queda, uns 15 metros no mínimo.

Tchbum !!!
Pela primeira vez o vi sorrir naquele dia.

Nos vestimos e ao irmos embora pediu um minuto. Pensei que o cara ia mijar. Mas não. Atravessou os arbustos e se ajoelhou sobre uma oferenda com duas velas e algumas frutas que alguém havia deixado. Ficou assim por um tempo e depois retornou. Não me dispus a lhe perguntar porque do tal procedimento. Consenti e compreendi que era tarefa e trabalho de santo.

_ Bom agora vamos lá em casa, quero te aplicar um som. Tudo bem ?_ Claro._ Depois vamos num bar perto da Universidade tomar umas. Vou te apresentar pruns amigos que são todos teus fãs.

Ao chegarmos em minha casa, o cavalo não podia, obviamente, entrar. Então o amarramos num poste no terreno baldio da esquina. Ao abrir o portão e passar a chave na porta da sala, me dei conta de que havia um santo em minha casa.

_ Quer um café ? – coisa mais besta de dizer prum santo._ Não.

Liguei o computador. Selecionei o som e equalizei as caixas Satellite.Olhei pro lado e esperei, ainda sim, não esperando absolutamente nada.A música veio como sempre, fantástica.

_ Jorge de Capadócia do disco Solta o Pavão de 1975 do Jorge ainda Ben.
_ É issaí.
_ Tenho todos os Jorge Ben. Deixa o Jorge Ben de lado Robisson. Já conheço tudo. Me surpreenda rapaz. – disse isso se levantando e olhando minha coleção de discos e meus livros na prateleira.

Rolei a lista de reprodução de Jazz.Começou com Charles Mingus estraçalhando em “Moanin”.Bolei um baseado e fumamos, eu e São Jorge, vendo a fumaça subir pelo ar pra fora do quarto pela janela.

Era engraçado como nos entendíamos em silêncio.

Li uns poemas meus que ele parece ter gostado muito. E contei sobre meus planos mirabolantes pra minha vida e de como pretendo lançar meu livro. Obviamente fiz questão de sua presença e o convidei pro lançamento.
Depois de um bom tempo com Charlie Parker, Thelonius e uns outros, decidimos seguir caminho ambos com os olhos vermelhos.

Ao chegarmos ao Bar Verde, havia uma confraria de amigos e conhecidos espalhados pelas mesas, coisa pra mim inacreditável por ser praticamente férias da faculdade.
Acreditei, arrogante, ser um sinal do destino ao reunir tantas almas em torno do que viria a ser o encontro de suas vidas.

São Jorge se sentou e pedimos uma cerveja, uma dose e uma porção de queijo com orégano. Eram 6 horas da tarde e o sol se preparava pra se pôr. Friozinho. Fim de tarde na companhia de São Jorge. Quem acreditaria.O santo, agora mais à vontade, falava sobre guerras e batalhas em terras longínquas e de como havia se tornado o padroeiro da Inglaterra.

_ Mas depois das Malvinas, da Thatcher e agora o Blair e essa merda toda de Afeganistão, desisti daquele povo.

Fazia sentido. Muito sentido. Até porque a Igreja Católica já o havia expurgado do rol oficial dos santos há algum tempo. Hoje São Jorge é um santo rebelde, sobrevive através da fé e da tradição e não deve obrigações nem pede autorização ao Vaticano para o que quer que seja. Bebemos em sua homenagem, mais um marginal a nos abraçar.

Ficamos realmente altos e felizes depois de umas cervejas e doses da boa pinga de engenho. Umas moças se engraçaram com São Jorge, que retribuiu os agrados oferecendo ao violão bonita canção medieval do norte da Capadócia.Disseram elas, ser ele, o macho alfa da nossa mesa, eram biólogas perdidas no Campus Santa Mônica. Querendo um pouco mais de diversão nas suas vidas.

Às 9 da noite decidimos ir embora. O Bar Verde sempre fecha a estas horas, pois o Bairro Progresso, apesar do nome, é perigoso durante a noite. É um antigo loteamento incrustado no hoje mais populoso bairro da cidade, o Santa Mônica. E os donos, Reinaldo e Ronaldo, às 7 da manhã estão de portas abertas. Além do que o Verde mais do que um bar é uma mercearia, ou “Venda”, como diria minha Vó , em que você encontra de tudo. De tudo mesmo, até santos vivos.

Nos despedimos dos amigos entre gargalhadas e abraços e seguimos, os dois caminhando sob uma chuvinha fina, levando pelas rédeas o cavalo.

_ E agora vai pra casa?
_ Sim.
_ Aonde anda morando? Rola uma visita?
_ Você não conseguiria chegar lá.
_ Sei.

_ E você vai pra tua casa?
_ Sim.
_ Te deixo lá sobe aí.
_ Não. Não precisa. Caminhar na chuva é dos meus esportes prediletos.
_ Também gosto. De onde eu venho não chove muito.
_ Então vamos indo.
_ Volto na próxima terça feira 23.
_ É mesmo? Vou olhar na folhinha pra sacar quando será.
_ É em Julho. Antes que eu me esqueça, toma pra você.

Uma medalha e um escapulário.

Estava escrito em letrinhas miúdas; “perseverança ganhou do sórdido fingimento e disso tudo nasceu o amor”.

_ Até nossa próxima terça feira 23, Robisson.
_ Até.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Coração Mofado

Encontrei arrumando o quarto sis dias uma caixinha empoeirada
que há muito não via

como num filme, se consumou o flashback e lembrei

do momento fatídico quando arranquei do peito sangrando
o coração em desuso
e permaneci tristonho por alguns minutos pensando se o comia;
autofagia desesperada
ou se o doava ao Hospital das Clínicas

ponderei e preferi não fazer ninguém mais sofrer
então guardei na primeira caixa de papelão que vi pela frente
pois como diz o Edu Guedes
aquele cara do programa de culinária na TV

_ Na cozinha, como no peito, devem-se evitar utensílios que não tenham funções e só ocupem espaço

e agora lá estava ele, meu coração mofado
ouvi que ainda batia baixinho

então

sem pestanejar o pus no tórax novamente
seu devido lugar
e respirei o ar inflado
sentindo de novo um brilho no olhar

daí saí pra ver o dia
a vida
e decidi nunca mais arrancar

meu coração

seja por livre arbítrio
ou por decepção

.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Poema (?) de teor pessoal pra nunca ser publicado



toda uma ala do segundo andar do Hotel, si fim de semana promoveu uma grande festa em nome dum artista, algum de vanguarda, como dizem em Paris
muita bebida e destilados

a balbúrdia aconteceu no quarto que dá pros fundos, então a música tava no talo

Rssssss

nessa noite eu tomei conhecimento do Pata de Elefante
aliás a essa altura muito louco de Gyn
amigo que sou do proprietário do apartamento pedi uma cópia, no que ele já fez saltar no mequintochi

_ Leva ... gravei uns Cream e Yarbirds também

Eita !!!

Pata de Elefante é, ou vem sendo nos últimos dias, o som dos corredores desse pardieiro

solto no shuflle e leio poesia, deitado nu

Vou morrer logo logo ao acordar
Minha sobrinhazinha diria

Loguin titi ?

Ahhh dá vontade de chorar



Mas ainda resta tempo para escrever um conto chamado Empire Vampire sobre uma organização de vampiros que caça os últimos humanos e os aprisionam até serem negociados, vendidos pra serem devorados

Sem muito personagem principal, enredo abrangente sobre o enfoque da situação do universo apresentado

Achei a idéia boa

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Qual é o nome disso ???


dei sopa pro azar
e
fui condenado a viver com um demônio nas costas.

pra sempre será

eu e ele

a lutar nas noitinhas
_ Oh !!! Valha-me dEUs ...
.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Alguma ajuda (enquanto espero)




Ser solitário é querer fumar um cigarro quando não te sobra mais nada e lady stardust e rocknroll suicide cortando teus pulsos e o ar, daqui até a eternidade, cercado de trinta milhões de pessoas.

Lembrar d’alguém, lembrar com força, sentir com vontade, não se importar em parecer patético ou comovente.

Olhar de verdade nos olhos, ter do que se envergonhar.
Ser instintivo ter premonições.
Suar sentado no banco de passageiros..
Agir antes do despenhadeiro.
Evitar a queda.
Levitar.

Tocar o ombro amigo.
Sorrir ao ser cumprimentado.
Nada de balbuciar falar baixinho.
Dizer gritar.
Cada palavra cada pedaço de sílaba sangrando na boca, mastigar seus dentes e íntimos sentimentos
Cuspir e jogar fora.
Expurgo e dor.

Dói.

Ser místico
ser mais relapso
ser intenso
ser só e emanar seu santo
beber da água dos prazeres e limpar suas feridas
lentamente

Ter amigos cura dores

Imersão




Dez mil soldados atravessando os canais de Amsterdam
Marchando solenes sobre as terras encharcadas
Bons, maus, tolos e inocentes

Nos olhos
a transição entre as trevas e a iluminação
nos domínios secretos
do seu coração

Preferir percorrer com destreza as agruras dos dias
à fugir da alma e suas impurezas

Verdade imersa na solidão de cada homem
Incólume e sozinho
Percorrendo trilhas de fumaça, sal, sol e sangue

Vencendo seu diário dragão, passo a passo pra fora do abismo e da escuridão



.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

As barras das calças



As barras das minhas calças não me deixam mentir dos lugares onde andei

Escritos em laminha fina todos os bares, boates, butiquins e biroscas além das casas dos amigos e das ruas

Grafado em grandes carimbos as salas de aula, os escritórios, auditórios, repartições e subseções que já freqüentei

Nos calcanhares, os tropeções e as correrias

os passos bem dados

e os além do abismo
As barras das calças não o deixam mentir dos lugares onde andou

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Acaso, caos e coincidências


Acredito em coincidências.
Acredito em acaso. Em instinto.
Meu Deus também joga dados, mas também sai às vezes pra dar um rolê.
Deixa o tabuleiro à mercê das crianças.

Acredito em premonições e no poder intuitivo.
Acredito no que dizem os arrepios na espinha. Creio em dejä vus.
Tento sempre que me lembro, decifrar meus próprios sonhos.
E os dos outros também.

Leio horóscopos.
Freqüento centros de candomblé.
Participo de reuniões de médiuns e videntes. Como biscoitinhos da sorte.
Peço a ciganas q leiam minhas mãos, as duas, pra que não restem dúvidas.

Sento sempre q posso
No centro da cidade na hora do rush
Tentando observar o acaso agindo sobre nossas vidas.
Um encontro inusitado. Uma batida de carro. Um ônibus q se perde.

Daí me permito seguir pessoas e descobrir o que o acaso lhes reservou.

Mania estranha né ?

Poizé... Melhor q roubar chocolate Bis nas Lojas Americanas, igual fazia quando estudava no Bueno.


Acredito que algumas coisas não são à toa. E outras acontecem e servem ou se utilizam, como q sendo antenas do subconsciente, pescando o pensamento coletivo.

Crash da bolsa, presidente americano negro e descendente de muçulmanos, as historinhas da Mônica agora são adolescentes, começo a ficar barrigudo, meu joelho dói, minha banda lança disco, eu lanço livro e a chuva se aproxima no horizonte.

Alguma coisa isso tudo deve ter ...

Tempo maluco esse em que vivemos.
Mas sempre foi assim, é como dizia acho que Dickens “... a mais maravilhosa época do homem, é a em que se vive”.

Meio obvio né Charlie ... mas tudo bem.

É ou seria presunção, adivinhar o futuro. Dizer isso ou aquilo.
Não me cabe ...

Do futuro pouco se sabe.
Sei q fim de semana tem ensaio, futebolzinho na sexta com os brothers, festinha no sábado.

Aliás festança né...

Do futuro pouco sei.
Sobre mim mesmo, ainda ando lendo a bula.
Mas estoy muy curioso sobre o que me guarda, esse maldito futuro.

Pra mim e pra nós

Pra vocês e pros outros

Pra eu e você

Pra ela


Pois bem ... nós vemos então qualquer dia desses

no futuro

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Coluna No Bolso da Calça



No Cult Blog ( http://www.cultblog.com.br/Robisson.html )a coluna “No bolso da calça...”.

Além de meus poemas, música e cultura pop. Tudo regado a caipirinha e queijo com orégano. A primeira porção já ta lá “She’s Leaving Home – o poema” que também está cá embaixo.

O CultBlog é um dos site culturais mais interessantes de Uberlândia, através dele você fica por dentro de muita coisa que acontece por aqui.

No mais, a Juanna Barbêra contrabandeou duas faixas do seu disco “Deserto Sonora” e tascou no myspace da banda

São “Van Jorge Grogh” e “Missa Branca”

E o Hotel Sete continua aqui até q o derrubem pra construir um estacionamento no centro da cidade.
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

She’s Leaving Home – o poema





Ela foi-se embora
Saiu de casa sem se despedir e pegou suas roupas e coisas
De carona com a cigarra
Sacrifício supremo de donzela
Foi-se a vencer seu diário dragão
Na noite da derradeira desculpa

E não muito longe dali
Nas arquibancadas de mármore a plebe vibra
Brindam nas tribunas elegantes arquiduques e suas concubinas
A orgia que insurgente faz-se em vir
Lá fora, além das muralhas, ouve-se o estrondo poderoso da multidão em êxtase e regozijo

E entram os leões no estádio
Em silêncio
Suas patas, agora doloridas pisam a terra fofa, levantando poeira
Cintilantes e sombrias as feras observam os olhares
Nenhum rugido
Apenas ódio e fome

Em seguida adentram por um oposto portão, as ninfas
carne nua
alimento escondido sob a seda

Esperávamos agora vê-las devorar seus brutos chacais

E fez-se a festa

O duelo travado é inimaginável
Findado o embate, com seus ventres e úteros sangrando
Arrastam-se, os demônios fêmeas

Ao redor da arena o vento dedilha os estandartes das bandeiras dos reinos envolvidos
Seus reis e rainhas de olhos brilhantes se entreolham duvidando do que vêem

Num estrondo os portões são arrombados e a multidão invade o picadeiro

Numa onda efervescente a massa humana engole as ninfas

O mau cheiro é tremendo, carne putrefata e fezes no ar
D’alguma maneira um incêndio se inicia na ala esquerda dos camarotes
Correria e pessoas sendo pisoteadas
Salve-se quem puder Deus está morto

A César o que é de César
Alguém crava um punhal nas costas de Petrônio
Roma pega fogo
E eu acendo meu cigarro nas cinzas desta noite de neblina e continuo a caminhar me acreditando são e salvo