quinta-feira, 30 de outubro de 2008

She’s Leaving Home – o poema





Ela foi-se embora
Saiu de casa sem se despedir e pegou suas roupas e coisas
De carona com a cigarra
Sacrifício supremo de donzela
Foi-se a vencer seu diário dragão
Na noite da derradeira desculpa

E não muito longe dali
Nas arquibancadas de mármore a plebe vibra
Brindam nas tribunas elegantes arquiduques e suas concubinas
A orgia que insurgente faz-se em vir
Lá fora, além das muralhas, ouve-se o estrondo poderoso da multidão em êxtase e regozijo

E entram os leões no estádio
Em silêncio
Suas patas, agora doloridas pisam a terra fofa, levantando poeira
Cintilantes e sombrias as feras observam os olhares
Nenhum rugido
Apenas ódio e fome

Em seguida adentram por um oposto portão, as ninfas
carne nua
alimento escondido sob a seda

Esperávamos agora vê-las devorar seus brutos chacais

E fez-se a festa

O duelo travado é inimaginável
Findado o embate, com seus ventres e úteros sangrando
Arrastam-se, os demônios fêmeas

Ao redor da arena o vento dedilha os estandartes das bandeiras dos reinos envolvidos
Seus reis e rainhas de olhos brilhantes se entreolham duvidando do que vêem

Num estrondo os portões são arrombados e a multidão invade o picadeiro

Numa onda efervescente a massa humana engole as ninfas

O mau cheiro é tremendo, carne putrefata e fezes no ar
D’alguma maneira um incêndio se inicia na ala esquerda dos camarotes
Correria e pessoas sendo pisoteadas
Salve-se quem puder Deus está morto

A César o que é de César
Alguém crava um punhal nas costas de Petrônio
Roma pega fogo
E eu acendo meu cigarro nas cinzas desta noite de neblina e continuo a caminhar me acreditando são e salvo

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Carta de despedida a meu amigo Sexta-Feira

eu à deriva
fazendo barquinhos de papel nas mãos
solto-os na enxurrada ? ou não

repasso passo a passo minha escapada da ilha em que me encontro
tem de ser lua nova, maré baixa
e que os chacais não me vejam ou sintam meu cheiro
é ...

ando perdidão da silva
moço, como chama essa rua de minha vida ?
nessa esquina lembro que bebi um dia com amigos outros com amantes
dess’outra me vêm à mente noite que larguei amiga despúes de festa
enfim soltar seu corpo finalmente no ar, mas não pular de prédio
corpo solto na horizontal
deixar tuas pernas te levarem pra onde quiser
pra isso, precisa de disposição e paciência
há muitos lugares aonde ir
e
levar os devidos mantimentos
e
nunca deixar o mais belo sorriso no rosto em casa

pois coisa tão preciosa não há
portanto entregá-lo a qualquer

... é desatenção

tesouro escondido
gengivas, salivas e próteses dentárias
vencendo guerras
meu precisar vem de pressentir
vem de supor
de imaginar
decifrar e devorar
não do pressentir objeto
real tátil
supor nas entrelinhas
invadir imaginários
existir inconsciente

no meu barco naufragado meu avião envia sinais de mayday

queria hoje ser outro
ser Jorge, Marcos, Eliseu
ser você
chega de tanto ser eu

cansei das corcovas nas minhas costas
e do gosto salgado do mar dessa minha ilha

abracos amigos

beijinho meu bem

lá me vou para o continente


quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Bob Dylan




quem vai dizer?

um ídolo, uma crença, religião pop, inconsciente coletivo


rolando na grama

contando
descortinando

“segredos que todos já sabem

ou se não sabem desconfiam”

dono de alto nível de comunicação


antene-se

ou caia fora

(suspiro)

é ...
eu aqui agora declaro confissão

coisa pra ser delicada
escrita toda em letra minúscula

pequena rezinha
eu assim rezando baixinho na página ao santo de óculos escuros
ajoelhado em frente ao computador
meu pequeno oratório
peço:

“diz pra mim
qualé mermão?”

é pra ler baixinho
perceber as letras pequeninas em respeito

normal times new roman 12 75% Word 2007

falar pouco e sorrir

celebração



depois fumar um cigarro
exausto



e depois ligar todas as caixas de som do quarteirão

criando a partir de agora
o momento Bob Dylan em todos os lares do mundo

escolho o dia 18 de agosto
porque foi sis dias
ta fácil lembrar

2: 23 da tarde
sob o sol de terça feira

ninguém é obrigado mas o convite tá feito
esse tipo de coisa não é oficial
não passa pelas câmaras municipais ou comissões intersetoriais
não é discutido em seminários nos cursos de humanas
não é lei
não é facultativo
não dá dois dias de folga no serviço
não sorteia carro nem é na sessão de descarrego

existe dentro de nós

dentro de todo o universo que cerca a criação artística
e por mais desregrada
que a obra seja

ainda é a coerência
mesmo em meio ao aparente caos
que serve de mola motriz

a coerência é o costume
maior entrega do artista ao mundo

o artista mais violento e ultrajante
aos olhos sociais

tem um milhão de motivos a mais do que qualquer lacaio

pra estar vivo

não que eu seja algum fascista às avessas,
contra o que quer que seja
contra os lacaios ou qualquer outro grupo social
da elite ou do desbunde

contra nada nem ninguém
quase sempre a favor
por isso não me diga que

não

pois há

sim,

motivos pra estar

vivo

porque afinal

eu
não
estava lá

...

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sine qua non

Pequeno demônio na cabeceira de minha cama
me avisa pra ir com calma

Não ser afobado e não trocar os pés pelas mãos

Ir de encontro ao seu céu
Já não há mais tempo pra dizer adeus

Ou mesmo olá

Toda a sabedoria popular avisa que dois corpos
não ocupam o mesmo espaço

Cabe saber portanto, e então,
que não se ama duas pessoas ao mesmo tempo

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Éramos negrões fudidos e oprimidos do Sul dos Estados Unidos em 1920




Gravar um disco mais que escrever um livro, é único e fugaz
O livro tá na cuca, na imaginação
As palavras grafadas pra sempre no papel

E ninguém a não ser você as lê
interpreta
imagina
decifra e cria
tudo no silêncio, no livro o silêncio é a única coisa que existiu

sabe como é

Agora a música tá na fala, na boca, na voz
Tá viva do teu lado te roçando os calcanhares
Gravou uma vez, é aquilo

E aí já era

19 e 20 de julho de 2008

dias de
nossas vidas
daqui a eternidade
dos mais importantes

vou guardar a camiseta amarela toda furada que usei
como troféu
guardá-la como torcedor apaixonado que pega em meio à multidão, na derrota por goleada pro rival, a luva do goleiro peruzeiro
e que pensa caminhando para casa, fazendo figa e apertando o amuleto

_ Próxima rodada vamos ganhar !!!

No estúdio, umas horas a música sangrava um pouquinho

Ia lá e ...
água borricada mertiolate assoprava e continuava

apagava as luzes na cabeça e via toda a minha vida

o que fiz e o que quero fazer

madrugada, bar, cigarro, samba, cervejas, beijo, drogas, amigos, encontros despedidas, rodoviária, ônibus, táxi, prostitutas, hotel, estúdio, banho, cama, sono

sonho nº 1
o ar tocava um sax numa boite em Massachusetis (falado pelo Mussum, que por sinal também estava lá)

cheiro de conhaque no bar, muito
depois da última apreensão, bourboun e vinho eram difíceis de encontrar

nós éramos a banda do lugar
e tocávamos só pra ganhar uns goles no butiquim
éramos negrões fudidos e oprimidos do Sul dos Estados Unidos em 1920
zero estrelas do rocknroll
sabíamos que íamos e poderíamos morrer a qualquer momento, tanto nós quanto nossos velhos pais negros de cabelos brancos e nossas filhas e filhos negros, crianças ou adolescentes
e qualquer um de nossos amigos negros como nós
afinal, éramos negrões fudidos e oprimidos do Sul dos Estados Unidos em 1920

tocávamos e as almas escorriam pelo salão

pessoas sentiam tão fortemente aquela música que uns tinham muita vontade de se masturbar

eu tinha cicatrizes no rosto uma voz tonitruante e roufenha
tocava banjo
B. media dois metros, tinha costeletas e ainda se chamava B.
Leôncio era Jonhson e tocava baixolão com mãos enormes

Nossa banda era Susie & The Heart’s Mopho

Aline era Susie, uma crioula de bunda enorme, e nós a acompanhávamos ocasionalmente em seus delírios de soul
Amávamos o jazz e o blues, éramos todos filhos de lavradores e havíamos freqüentado as igrejas gospels em nossas cidades

Uma lenda dizia que Jerry Lee espancava seu piano sob influencia de nosso guitarrista e pianista Antonys
E ainda havia Kidopoulos nas vassourinhas, preto como o petróleo e amante das atrizes de vaudeville

Éramos um bando de desgraçados impetuosos

Depois de dois intervalos e várias improvisações, em meio a um gole de Vermouth, ouvi meu verdadeiro nome sendo dito e acordei

Susie já de banho tomado me despertava
Era hora de levantar pegar um táxi e ir pro estúdio no Setor Leste da capital do Estado de Goiás

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29 de julho de 2008

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Amor à primeira vista

Amor à primeira vista
Dizem os estudiosos, não existe
Demora-se ao menos 36 horas para que o cérebro dê falta do beijo e os olhos sintam o toque do rosto do outro

Porém, em todos os grandes magazines do centro da cidade, vê-se os anúncios

Amor à vista, com desconto
À prazo, primeira parcela, somente no segundo semestre
Aceita-se cartões de crédito

Uns ainda acrescentam:

Sem consulta ao SPC ou Serasa
ou
Nas compras de amor, acima de 50 reais, ganha-se um coração felpudo

Porém, não se aceitam devoluções, sob nenhuma circunstância

Apenas em ti teu amor cabe
uma noite com teu amor e ele não veste mais ninguém
Arranha a pele dos que o experimentam
Suja a bainha da blusa das outras meninas
Aperta e não serve na cinturinha da moça de corpete

Como já dizia um baiano, “ aquele preto que tu gosta ... “

Seu amor é só seu ...

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Kamikaze Kiwi

...
Leiam essa minina Luana

http://kamikazekiwi.blogspot.com/

é das melhores coisas que li nos últimos tempos

fui
...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Equinócio de Primavera


Certo dia acordei verão,
havia flores nos
cabelos.

Respirava por folhas verdes
e uma abelha me beijava a
nuca.

Tentei me virar e meu próprio espinho
cravou em meu
umbigo.

Do meu peito nasceram lírios
e com
olhos
botões de rosa
dos meus dois
dedões do pé
ví crescerem girassóis
dionísios.

Enfim, me vi jardim então decidi dormir, pra sonhar com a chuva e com a mão da moça,

que poderá me acordar...
colhendo flores em mim...colhendo flores em mim ...colhendo flores em mim...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Campeão Nacional de Arremesso de Bituca de Cigarro




tenho um esporte particular
eu deitado em minha cama, arremessando bitucas de cigarro pela janela
sem que elas toquem as grades
e caiam pra dentro do quarto

tenho me dado bem e me tornado de um amador a um possível profissional

já me vejo no sportv

_ E lá vai ele no terceiro maço de Yes !!! Numa média de 7 por 1 acertos ... é fantástico !!!

_ O adversário pede arrego por não mais agüentar fumar Lexus ou Yank. Nosso campeão exultante é cumprimentado pelo Presidente da Federação Brasileira de Arremesso de Bituca, ele que assistiu a toda competição de um canto, em sua cadeira de rodas.

_ Era possível vê-lo vibrar entre uma e outra inalação de oxigênio

_ O câncer, disseram os médicos aos nossos repórteres, está regredindo, então o liberamos para essa grande celebração.


Na coxia


_ Parabéns você é um orgulho para nós !
_ Obrigado, espero não acabar como o senhor.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Love and Hate


Acordo moribundo cercado de cacos de vidro
Nu, meu corpo pelado cambaleante se arrisca levantando subitamente entre as navalhas
Precisava de uma bebida, na geladeira encontro vinho vagabundo
Numa golada refaço a noite anterior limpando da testa o mormaço e a sujeira do chão
Observando minhas mãos imundas e minhas unhas roídas
Sugiro a mim mesmo um banho
mas não agora, não agora

Volto ao quarto e abro as cortinas pra que o dia penetre na minha vida
mas há pouco sol hoje nessa cidade
e só um vento frio vem e me abraça

“Ame-me ou deixe-me em paz”, de quem é essa música que não me sai da cabeça ... ?

Disso lembro entre um gole e outro, acendendo um cigarro que por um tempo
amei te odiar ou odiei te amar

Prazer supremo, mal secreto

Pensar que gostar vem sendo a pior coisa que poderia te acontecer, obviamente não é a melhor coisa a fazer ao acordar, ainda por cima com a cabeça doendo e o estômago vazio

Humpfffff

Outro gole

Vai que eu esqueço

domingo, 18 de maio de 2008

Ogum e Iemanjá




.




não sou filho de Ogum, mas sim de Iemanjá
.
.

.
.
.
.
.

.
.
.
.
logo
eu
que
não
sei
nadar




...

São demais os perigos dessa vida



Sis dias um cara sacou uma faca pra mim
vindo na minha direção e eu escapulindo

Tinha, eu, mandado, ele, tomar no cu
É meio maluco ver alguém com uma faca na mão na eminência de te acertar
Ou não
“será que isso realmente vai acontecer...onde essa faca vai pegar... será que dói?”
Ameaças são ameaças até que se tornem o contrário

Objetivo do oponente: me tirar do passeio em frente à sua casa
Eu fui pro meio da rua

Deu meia volta e retornou de onde tinha saído, quando ouviu de mim

- Fica machão com faca na mão né...

Largou a faca e nos atracamos atravessando a rua até o passeio do outro lado, abraçados entre socos e pontapés
Balé violento e não coreografado, puro improviso

por incrível que pareça, eu que nunca briguei tinha imobilizado o cara, e podia se quisesse ter dado uma senhora cabeçada no seu nariz

chegou a turma do deixa disso

as pessoas no bar da esquina se levantaram
pra ver melhor sabe, eram quase meia noite e a rua era escura
mais um pouco e as apostas começariam

“três cervejas no cabeludo” ... “eu vou no baixinho atarracado”


um camburão da polícia vira a esquina, os policiais olham pra todos e o carro avança e se distancia
alguém diz “to flagrado” outro alguém diz “vaza daqui meu” outro alguém espertinho diz “me dá a parada que eu guardo”

me sento na esquina e penso, abrindo o zíper da blusa de frio
“preciso parar de freqüentar lugares onde as pessoas andem armadas “

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Convênio de Saúde


com uma navalha pronta pra cortar sua garganta
não me faltam motivos pra lhe matar logo mais
mas
assassinatos levam tempo e pioram a saúde
além do
mais
meu convênio green plus
não me garantiria sucesso atrás das grades



quarta-feira, 7 de maio de 2008

o herói


refaço o mesmo caminho do herói que não teve tempo de correr
morreu porque não amarrou o sapato
pulou da ponte porque achou que era raso
bebeu cicuta por indisciplina
roleta russa em orgia com prostitutas
mão boba na fila do cinema

"distraídos venceremos"

"vai meu filho ta fazendo o que aí parado na esquina
quem fica parado é poste e quem faz ponto é puta"!

mais um passo
e ainda pulo no teu pescoço

ps. um beijo

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Fim



o fim não é quando algo acaba

mas quando outra se inicia

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Precipício




quem adia a saída do hospital psiquiátrico
quem suspeita da virgem com mãos em riste na altura do altar
quem santifica ou inveja a porca roliça rolando na lama
quem viaja sem bilhete de volta ou se ressente com a ressaca moral
quem devora livros sem deixar de olhar pros lados ao cruzar uma esquina
Eu não me meto com gente séria
ou muito apegada ao certo
esse povo não faz bem pro meu céu
não me vejo vendo estrelas ao seu lado na noite do reveillon
nem jogando contas na maré de Iansã

em eco me faço

eu eu eu eu eu eu
eu sou eu sou eu sou eu sou
sou sou sou sou
eu
você você você
não passa daqui
não vira aqui
não sabe daqui
não
não
não

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este "Precipício" estava no computador num arquivo junto com outros dois de meus poemas e outros três do Eudoro Augusto

li e gostei, mas não sei se fui eu que o escrevi, não me lembro

ou é pérola dos meus dias ou é milagre da coincidência
meu esquecimento talvez um dia me presenteie com uma surpresa
a exata descoberta
se alguém encontrar num ponto de ônibus ou em qualquer lugar o verdadeiro autor
informe-o e informe-me ... é isso.

re turn



meu copo de vodka
não me deixa trazer
meu corpo de volta

o papel



o papel tudo aceita
mas nota falsa e desaforo, a dona do bar não aceita

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Êxtase




O único objetivo da minha poesia
é
fazer com que você
ao acabar de lê-la
tenha
ou
ao menos esboce
um riso torto no canto da boca
e
os olhinhos estejam semicerrados em sorriso.