
domingo, 18 de maio de 2008
São demais os perigos dessa vida

Sis dias um cara sacou uma faca pra mim
vindo na minha direção e eu escapulindo
Tinha, eu, mandado, ele, tomar no cu
É meio maluco ver alguém com uma faca na mão na eminência de te acertar
Ou não
“será que isso realmente vai acontecer...onde essa faca vai pegar... será que dói?”
Ameaças são ameaças até que se tornem o contrário
Objetivo do oponente: me tirar do passeio em frente à sua casa
Eu fui pro meio da rua
Deu meia volta e retornou de onde tinha saído, quando ouviu de mim
- Fica machão com faca na mão né...
Largou a faca e nos atracamos atravessando a rua até o passeio do outro lado, abraçados entre socos e pontapés
Balé violento e não coreografado, puro improviso
por incrível que pareça, eu que nunca briguei tinha imobilizado o cara, e podia se quisesse ter dado uma senhora cabeçada no seu nariz
chegou a turma do deixa disso
as pessoas no bar da esquina se levantaram
pra ver melhor sabe, eram quase meia noite e a rua era escura
mais um pouco e as apostas começariam
“três cervejas no cabeludo” ... “eu vou no baixinho atarracado”
um camburão da polícia vira a esquina, os policiais olham pra todos e o carro avança e se distancia
alguém diz “to flagrado” outro alguém diz “vaza daqui meu” outro alguém espertinho diz “me dá a parada que eu guardo”
me sento na esquina e penso, abrindo o zíper da blusa de frio
“preciso parar de freqüentar lugares onde as pessoas andem armadas “
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Convênio de Saúde
quarta-feira, 7 de maio de 2008
o herói

morreu porque não amarrou o sapato
pulou da ponte porque achou que era raso
bebeu cicuta por indisciplina
roleta russa em orgia com prostitutas
mão boba na fila do cinema
"distraídos venceremos"
"vai meu filho ta fazendo o que aí parado na esquina
quem fica parado é poste e quem faz ponto é puta"!
mais um passo
e ainda pulo no teu pescoço
ps. um beijo
quarta-feira, 23 de abril de 2008
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Precipício

quem adia a saída do hospital psiquiátrico
em eco me faço
eu eu eu eu eu eu
não passa daqui
não vira aqui
não sabe daqui
não
não
não
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este "Precipício" estava no computador num arquivo junto com outros dois de meus poemas e outros três do Eudoro Augusto
li e gostei, mas não sei se fui eu que o escrevi, não me lembro
ou é pérola dos meus dias ou é milagre da coincidência
meu esquecimento talvez um dia me presenteie com uma surpresa
se alguém encontrar num ponto de ônibus ou em qualquer lugar o verdadeiro autor
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Êxtase
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Poema de ruas e avenidas

Prefiro “Psiu” ou “Hey gata”
Que digam sobre a lua, o orvalho e o vento
Sobre rosas e chá, nem pensar
Prefiro cocaína, esterco e goma de mascar
Que chorem dores incomensuráveis ou que queiram salvar o mundo
Prefiro poemas que dispensem apresentações
Evito poemas que digam sobre o proprio umbigo ou programas de televisão
Prefiro a vida dos outros, dos bêbados das putas dos loucos
Dos que não se dão bem
Da tristeza e da massa amorfa que é o sonho
A vidinha feliz da classe média não me interessa até porque já sei como é
Evito ler poemas ao atravessar a rua, eles podem te matar
sexta-feira, 4 de abril de 2008
As Crianças de Hoje

Depois que os Três Porquinhos foram embora
Lobo Mau arrumou um emprego em seriados infantis
Dizem que no dia das crianças
Lobo Mau acorda se sentindo um pouco mais feliz
Chaupezinho, se tornou uma menina tão sapeca
facilita, e se contorce em sua dança de puta e meretriz
Fez lipoaspiração em seu culote
hoje faz programa numa boate no centro de Paris
imagem de Fernando Diass no http://fernandodiass.blogspot.com/
segunda-feira, 31 de março de 2008
a voz e as palavras

FIRME
treme
treme é por que talvez bata um vento
sinta um frio
mesmo que diga a palavra
CALOR
A voz e as palavras, andam juntas, mas desconfio que se apedrejem em quartos escuros.
As palavras teimam em vir de supetão, de rompante, trombando, se amontoando na porta da voz, e querem o que querem na hora que querem e não se importam se a voz, solitária, rouca pode atendê-las... palavras espalhafatosas, rudes, malcriadas, birrentas.
As mais educadas vêm atrás esperando sua vez que pular da garganta e estalar a língua.
A voz muitas vezes não consegue corresponder aos caprichos e desejos das palavras, não consegue, tamanho o seu trabalho, de ocupar o exato espaço no tempo e no mundo tal qual seria o significado e o tom que aquela palavra e frase mereciam...
A voz é erudita, estudiosa, dedicada, atenciosa aos detalhes, as palavras são galhofeiras, andam em bandos, e podem muito bem, ao mesmo tempo serem dóceis e logo em seguida cruéis ... e além de tudo as palavras têm 1 zilhão de vozes pra conhecer, não se amarram assim tão fácil, querem várias bocas, gostam de beijos longos ...
Porém existem aquelas vozes de que as palavras se afeiçoam mais e sentem flanar macia sua dicção ao saírem das cordas vocais...
A voz é triste, única, mortal
as palavras são dionisíacas, mas prisioneiras da voz
existirão, as palavras, pra sempre, mesmo que não exista voz ...
A voz trêmula que afirma, afirma como palavras e nega como voz.
F. Pessoa
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Poema escrito sob a inspiração da leitura do livro “Ao encontro da PALAVRA CANTADA – poesia, música e voz” – Editora 7 letras.
31 de março de 2008

Durou muito? Pouco ? Suficiente ? Bobagem... nenhum amor é suficiente
Alguém sempre ama mais, e mesmo quem ama mais, não ama o suficiente pra si mesmo porque o outro não o ama como ele ama o outro ...
Gostar de alguém nada tem a ver com carência, como já disseram por aí, mas com as melhores gargalhadas da tua vida, com pizza requentada de madrugada, com perder ônibus em rodoviária, com surpresa na saída da faculdade ou do trabalho, com escolher o pior filme na locadora e nem esquentar, viajar, fazer planos que não dão certo, tomar chuva
Acreditava na teoria de que nenhum romance dura, se os amantes não tomarem uma chuva torrencial num dia qualquer. É a perfeita parábola para o acaso das suas vidas. Se os dois se derem bem e conseguirem se virar na enxurada, têm futuro ...
Futuro ...
Mas aí alguém faz alguma merda, e pode ser quem ama mais ou quem ama menos, tanto faz pouco importa,
tudo se fode
Ana que amava Lucas que amava Sandra que amava Jorge que amava Lucia que teve o coração partido por um desastre momentâneo ...
Acordar cada dia sabendo do soco no estômago, ao amanhecer já pôr o bife na cara
A vida é boa, mas é também decepção, incongruência, desejo frustrado
ta bom que você pode se lembrar das férias na fazenda quando tinha 12 anos
mas ...
Pode aguardar amigo, virando a esquina, lá está ela, pegando na sua mão em chave de braço
_”Me dá a sua carteira e esse sorrisinho no canto da boca. Vamo,vamo, tá demorando porque rapaz? Eu sou sua vida e você acha que eu to de brincadeira...?”
Eu estou com febre, começo de febre
rosto corado de febre, fico até bonito doente e com olheiras
fim de semana agitado, 6 e 43 da manhã de segunda feira, o mundo acorda e eu vou dormir
Escutou ? eu vou dormir ...
Na vitrolinha, Patti Smith enfia uma faca no meu coração e gira, gira uma duas três vezes e sai gritando
Eu passo ...
Se não é pra amar, não será
segunda-feira, 17 de março de 2008
Chuva

Chove lá fora.
Mas chove muito, eu desejo um cigarro e dez mil palavras caindo sobre a cidade, pesadas, devastadoras, um noturno banho místico deflagrando a verdadeira catástrofe.
_ Meu Deus! As onomatopéias estão derrubando pontes em toda a grande São Paulo! – diz a garota do tempo - Frases inteiras arruinaram imensas plantações de café no interior do estado.
No coração pingam apenas pingos, chuvinha fina, e respingam no mofo da parede, formando certas letras. Eu a decifrar já desconfio, dessa gramáticad’agua, que até a chuva já sabe do que vai lentamente acontecer, e como na descoberta de qual desejada e premiada figurinha está nos chicletes plocmonter, bublegum ou babalu será seu nome na parede, nesse misterioso mofo úmido, que irá aparecer.
quarta-feira, 5 de março de 2008
errus umanos
como num filme preto e branco exibido numa sala da adevitrin (associação dos deficientes visuais do triangulo) ...
reforçar toda nossa fragilidade é mais que fundamental
é sonho
saber que todos os ossos se quebram e que em seu colo também se aninha qualquer ombro
quebrar a cara e sorrir sem dentes na antesala do dentista
levar aquele fora no primeiro dia de aula
iluminar sua vida com lampião à gás e isqueiro, dentro da barraca, você e quem você quer, debaixo de chuva torrencial
é demais se perder por aí ...
me mandem postais
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Macaco Bong, Antonio Sodre e Cuyaba sob os pes

li Antônio Sodré no beat frito da guitarra, sentado num canto dum estúdio abafado
_ Que se dane todas as festas do mundo e comemorações ... Natal, Páscoa, Dia das Crianças, Feriado Santo
minha festa predileta é a transcendência, a iluminação, se arriscar de madrugada em troca de diversão barata e saber que não vai levar um tiro, mesmo que não saiba
ou sendo mais mundano dormir rindo não se sabe do que
contente por existir dentro do espaço que te cabe exatamente embaixo da pele
Num certo momento, ergui P.A's imensas do meu coração
inimagináveis
e deixei-as tocar
de repente minha vida saiu, bem em frente e de dentro dos meu olhos, pra dar um role...
Depois d'um tempo ela voltou e disse.
_ E aí bicho, a vida é uma só, vai ficar aí me olhando ?
No que respondi.
_ Fica fria mulher, sou todo seu ...
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
1 200 km ou 51 milhas

fósforo
A estrada em chamas escondendo
tesouros
Bolhas de sangue nos pés e um sorriso
nos olhos
O dedo erguido e nossas almas
em brasa
Não sou você nem sou mais
eu
sol
cuyabano queima os ossos
o
vento
cortando os pulsos
e
o
suicídio
escorrendo
Uberlândia
Cuyabá
Itumbiara
Cuyabá
Rio Verde
Cuyabá
Jataí
Cuyabá
Rondonópolis
Cuyabá
Cuyabá
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Num Covil dos Ratos
- como haveria de cantar? –
berra todo nosso sufoco
como um doido na camisa de força
vem do útero do ânus estuprado
do peito doente
da cirrose do fígado
minha poesia é o pânico
a quarta dimensão terrível
da vida consumada no porto da barra pesada
das penitenciárias dos hospícios
do pervintin da maconha e da cachaça
do povo na rua
- do povo da minha laia –
minha poesia é o hino
dos libertinos
que conspiram na noite dos generais ...*
nesse labirinto não vejo saída
"seus poemas não lhe darão fama nem luxúria, quem sabe talvez uma cela escura na capital do país ...”
* Poema de Adauto página 251 do livro “26 poetas hoje”, música Maracatu dos Ratos da Juanna Barbêra
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
CANNIBAIS SATIVA

Já comi muita gente, mas maconha, hoje, não fumo com tanta freqüência
Comer gente é bom mas dá muito trabalho
Um dos maiores prazeres é destrinchar a carne dos ossinhos menores e fazer pequenos escapulários das pálpebras costuradas
Sentir a tessitura da pele ao ser arrancada e dependurar no varal sob o sol, junto com a sunga e a calça jeans puída
Gente hoje nem é mais um prato da moda, nos restaurantes preferem servir hambúrgueres de gergelim e sorvetes de passas ao rum
Mas ainda tenho meu livro de receitas guardado na estante
“Mestre Cuca Oswald: Como devorar pessoas abaixo do Equador”
A primeira receita envolvia Sardinha, macaxeira e tapioca
Nunca vou me esquecer do gosto doce da menina da 8ª série que, inocente, aceitou meu convite pra fazer o trabalho de álgebra em minha casa, numa sexta à tarde, sendo o mesmo trabalho pra duas semanas à frente... e em grupo
Suas sardas deram um colorido especial ao chá que preparei aos familiares durantes os cafés daquela semana
Ela me disse sobre as particularidades dos signos, de como a lua influi nas pessoas e quais os melhores dias do mês pra se cortar o cabelo...
Eu lhe contei sobre meu tio que sempre jogava no bicho, e lhe expliquei das combinações e de como funcionava as quadras, quinas e os palpites...
Ela, sorridente e feliz, me disse sobre o que havia sonhado na noite anterior
Daí não resisti e lhe dei a primeira mordida...





