sábado, 29 de maio de 2010

1 ano de Deserto Sonora




Há 1 ano, a Juanna Barbêra, banda da qual eu fiz parte, lançava seu disco Deserto Sonora. Logo em seguida a banda se desfez e cada um dos Barbêras seguiu seu rumo. Uns montaram outras bandas, outros se tornaram produtores culturais, alguns se tornaram artistas multimídia, outros foram se internar em clínicas de reabilitação ou mesmo hospícios e outros foram simplesmente cuidar da vida, o que, convenhamos, já é muita coisa.
A música fica no ar.

O CD com aquela capa maluca do Peyote tornou-se "souvenir" de sebos e colecionadores.
Na minha última busca no Mercado Livre, valia uma fortuna.

Confere aí pro seu deleite.

www.myspace.com/juannabarbera

Verão em terras indígenas




Um índio de Pindorama sentado em sua pedra ancestral, observa solenemente toda a vasta terra que o cerca.
Tendo somente como testemunha, ardendo, o sol selvagem sobre sua pele se lembra de sua tribo, de suas lanças, de seus cocares, de si próprio e dos seus.
Se lembra, como que num sonho, de tudo que existiu.

Planeja sem mesmo saber como, seu retorno.
O que lhe resta? A não ser tudo aquilo que lhe cerca?
Porque? Não há resposta no silêncio.

No entardecer sepulcral da floresta, se ouve um grito primal de um índio de Pindorama, solitário e amargurado.
Trouxeram a ele, os homens que caminham sobre as águas, entre tantas coisas que trouxeram; como dor, sangue e morte, uma palavra que mesmo em outros dialetos e idiomas não se encontra ou acrescenta significado.
Trouxeram a ele a solidão e sobretudo lhe apresentaram enfaticamente, e em bom português de Portugal a palavra... saudade.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

23 de abril - Dia de São Jorge




Jorge Da Capadócia

“Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo, meu corpo não alcançará
Facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia, viva Jorge!
Jorge é de Capadócia, salve Jorge!
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Ogam, Ogam toca pra Ogum
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Jorge da Capadócia”

Oração de São Jorge - Jorge Ben

.

terça-feira, 23 de março de 2010

São Jorge Terça-feira 23 Parte II




São Jorge me apareceu num sonho na noite da terça feira 23 de Fevereiro há um mês atrás. Estávamos numa casa no alto de uma montanha, uma construção de madeira ladeada por pedras. Ao fundo se observava um despenhadeiro e se ouvia o barulho de uma cachoeira, que não se via...
Abaixo e ao lado direito, um lago de águas imóveis e azuis. Paz nesse lugar era inevitável. O refúgio perfeito para um guerreiro.
A casa por dentro era de um estilo indefinido, rústico e com vários tapetes e poltronas. Havia uma lareira e também, vejam vocês, um laptop, sobre uma escrivaninha de mogno.
Nas paredes enfeites de várias nacionalidades. Casacos de esquimó, um par de lanças, provavelmente africanas, cruzadas sobre a miniatura de uma fragata espanhola. Vasos de cerâmica indígenas, espadas árabes e adagas japonesas. Vários tabuleiros de xadrez, e ao fundo da sala, um enorme tapete dependurado entre duas pequenas tochas, com a imagem de um dragão verde cuspindo fogo. Belíssimo.
Nos cumprimentamos com aperto de mão.

_Como vai? - perguntou ele.
_Muito bem.
_Vejo. Está mudado.
_São os dias.
Sorrimos um pro outro.
_Em julho do ano passado... porque não nos encontramos? - perguntei.
_Você sabe por quê. Você não quis Robisson. Pouca fé não gera iluminação.
Abaixei a cabeça.
_Não se lamente. Agora sigamos em frente, é o que devemos fazer, sempre.
_Obrigado.
Nos sentamos em poltronas de veludo, e me ofereceu uma bebida que disse ser um conhaque feito pelos marroquinos. Ao beber, pensei ter a mesma consistência e sabor dos conhaques de butequim. E não pude deixar de rir por dentro, ao lembrar das circunstâncias de nosso primeiro encontro, girando em torno de bugigangas do Camelôdromo Central.
''Puta globalização mesmo!'' – pensei.
Tomamos nossos goles em silêncio, saboreando a bebida.
_E o carnaval? Você pula carnaval? - perguntei e São Jorge riu.
_Não diria que pulo carnaval, mas participo. Pra você posso dizer que minha escola é o Salgueiro. Vermelho e branco.
_Ah foi lindo o desfile do Salgueiro, mas eu torço pra Estação Primeira de Mangueira. Salve Dona Zica. Salve Cartola.
_A Mangueira já fez lindos carnavais. Já que lembrou o Cartola, porei um dos discos dele pra ouvirmos.
Abriu um armário sobre uma cômoda e retirou duma vez uns dez discos de vinil. Abriu outra porta e pra minha surpresa vejo surgir um aparelho de som Gradiente de metal prateado.
_ “Verde que te quero rosa”? – perguntou.
_O Cartola de 74 talvez. – retruquei.
Pôs um dos discos na vitrola. São Jorge cantou a plenos pulmões este lindo trecho.
“Acontece que o meu coração ficou frio
e o nosso ninho de amor está vazio.
Ah se eu ainda pudesse dizer que te amo...
Ah se eu pudesse, mas não quero, não devo fazê-lo.
Isso não acontece...”

Bati palmas e acendi um cigarro.
_Já se apaixonou Jorge?
_Sim. De formas diferentes e com várias intensidades. Já destruí reinos por amor e já permiti serenamente que mulheres simplesmente fossem embora por saber ser o melhor, pra nós dois.
_Me identifico.
São Jorge deu uma imensa gargalhada e me serviu mais um gole de conhaque.
_Você Robisson, é um “bon vivant” apaixonado, teu coração bate noutro ritmo.
_Somos dói, meu caro amigo. - sorri.
_Um brinde ao nosso encontro. - caímos na gargalhada.
Era fantástico perceber que toda aquela realidade, aquele encontro, aquele lugar, aquela bebida era tudo um sonho, e que ao mesmo tempo era tudo tão real. Eu sabia que estava dormindo, podia sentir com a ponta dos dedos, minha cama. Mas de olhos fechados não me permitia sair daquele sono.
Então me convidou a jogar uma partida de xadrez, num maravilhoso tabuleiro de pedra sabão, segundo ele presente de uma donzela do sul da Índia.
Eu, destreinado desse nobre esporte não fui páreo a inteligência divina do velho Jorge, e em muitos momentos da partida observei um sorriso irônico, querendo brotar no canto da boca do Santo, como que a zombar da minha inabilidade de enxadrista. Mas em um segundo seu semblante se anuviava, e retomava as feições serenas que guarda o rosto de alguém imortal.
Sobre nos pairava a voz de Cartola, outro imortal.
_Sabe, Robisson, meus dias foram e sempre serão de muitos compromissos e tarefas a cumprir.
_Você é um Santo, irmão. Isso é normal.
-Sim, justamente. Pois eu posso tudo, compreende? Meu ir e vir somente a mim pertence amigo. A clarividência que um santo possui é uma dádiva que elimina qualquer possibilidade de erro, de que o destino nos pregue uma peça, que o acaso te surpreenda...
Seu rosto começou a ficar sério e cansado.
_Enfim, que se tenha o sublime gosto da verdadeira vitória, que somente existe, porque existe a derrota, a queda. Não conheço a superação, pois pra mim só há desejo e realização, compreende?
-Claro. Você pode tudo.
Nesse momento ele se virou e pôs o copo na mesa e me olhou nos olhos.
_Não, eu não posso tudo.
_Como assim?
_Há uma coisa que eu não posso. Somente uma e é a que mais me pesa, Eu não posso errar.
Percebi a angústia de São Jorge ao me dizer isso.
_Robisson meu jovem, veja bem, há um momento em que o homem se torna Deus, quando vence uma doença, quando cria uma obra de arte, faz uma descoberta científica ou escapa de um acidente. Em suma, quando faz algo que poderia dar totalmente errado, mas faz o certo. Isso é um milagre. Quando tudo aponta para o erro e entre um em um milhão, o homem faz a opção certa.
-Entendo.
-Um santo é unânime, irrepreensível, correto, prático e sábio. Perfeito compreende?
-Sim, com certeza.
_Por isso lhe digo que meus dias vêm sendo desde séculos, até a eternidade, de modorrenta mesmice. Meu imenso poder me causa cansaço. Não há surpresas nem novidades em meus dias.
Seus olhos estavam brilhantes agora. O disco do Cartola havia terminado. Levantou e caminhou até a vitrola.
_Vamos ouvir outra coisa? Um rock, que sei que você gosta.
_Pode ser.
São Jorge me saca da vitrola um puta disco dos Pixies e põe pra tocar “Monkey Gone to Heaven”... há um trecho na música que diz:

"if man is 5
then the devil is 6
and if the devil is 6
then god is 7...”


Volta pra sua poltrona e sorridente, me serve mais conhaque marroquino. Acendo um cigarro. Ele se ajeita e continua a falar.

_Quero provar alguns dias de “humanidade”, provar do desconhecido. Quero me ajude, você que sabe como muitos... a viver. Quero estar sujeito às improbabilidades do impossível, ao piscar de olhos do destino. Quero dias regidos pelos astros do desconhecido. Quero o livre arbítrio. Você pode fazer isso? Pode me acompanhar por alguns dias em minha peregrinação pela a Terra? Me guiar e me auxiliar?

Puta que pariu! Eu acostumado a pedir a São Jorge sortilégios, agora me via sujeito da inversa condição. Convidado pelo Santo a promover um milagre em sua vida e levá-lo pela Terra a conhecer os prazeres e a insanidade humana.

_Meu caro Jorge... seria loucura lhe negar esse pedido. Estou a sua disposição.
_Sabia que ia gostar da idéia. Prepare sua mochila, lanterna, suprimentos e coragem. Partiremos a qualquer dia, de hoje em diante.

Perguntei-lhe aonde iríamos e ele me disse que a pergunta era irrelevante pois eu já sabia a resposta. Eu já sabia aonde iríamos? Como assim?

_Até logo Robisson.
_Até Jorge.

Acordei suado e não dormi mais, eram 3 horas da madrugada. Sentei no computador e fui escrever isso.
Agora é esperar. Eu estou pronto. Já sinto o cheiro da estrada no ar.
No mês de Março há outra terça-feira 23.

São Jorge – terça-feira 23 Parte III




Sabia que alguma coisa iria acontecer. Muito provavelmente seria hoje. Talvez antes. Mas intimamente eu previa e supunha que o marco crucial de algo que acabaria por mudar a minha vida, a data-chave para o início da cruzada que São Jorge tencionava realizar seria nesta terça-feira 23 de Março.

Nos dias que se seguiram ao nosso último encontro, em Fevereiro, me envolvi com pesquisas de um novo projeto e saborosamente me tornei um recluso, dormindo e acordando bem cedo, abrindo exceções apenas nas noites bem estreladas, quando parto para algum local descampado e ermo, nos arredores da cidade, munido de um novo presente; um detalhado mapa das constelações. E devidamente bem acompanhado, me pego a decifrar o caminho das estrelas no céu... Andrômeda, Aquário e Peixes já as encontro fácil. Voltando pra casa, olhando a escuridão brilhante dos corpos celestes, me pergunto qual destas estrelas já estaria morta e ainda sim vemos seu brilho anos luz de distância. Um amigo diria n’um de seus poemas
“Vistosa por fora,
Morta por dentro”
Ao acordar, pelas manhãs sincronizo a localização da Lua aguardando seu ilustre morador. Minha grande dúvida é o que exatamente São Jorge gostaria de fazer aqui na Terra? Qual, na verdade, era sua intenção. Quais provações, visões pretende buscar. O que gostaria de ver e sentir? E assim, eu me perguntava, o que mostrar a um homem que é imortal, tem centenas de anos de vidas nas costas, pode fazer milagres bem como o que quer?
Por vários dias e em diversos momentos essa pergunta me inquietou. Em casa, ouvindo música, na rua dirigindo e estacionando o carro, depois do almoço vendo os noticiários de esporte, lendo um livro antes de dormir. A toda hora me pegava pensando no que poderíamos fazer. Ainda por cima, ele havia dito que eu já sabia a resposta. Isso era o que mais me intrigava. Como assim?
Certa noite, fumando um cigarro e contemplando o calor da brasa entre meus dedos, num estalo compreendi que seria talvez aonde eu quisesse levá-lo. Seria essa a resposta? A qualquer lugar? Raciocinei melhor e então vi que o ideal seria irmos a algum lugar também simbólico do que seja a passagem de um Santo pela Terra.
Comecei a repassar mentalmente os lugares que havia estado. Montes Claros, Belo Horizonte, Campinas, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Floripa, Curitiba, Salvador, Recife, Teresina, Porto Seguro, Cuiaba, Goiânia, Brasília... Chapada dos Veadeiros.
Opa... Bingo!!!
Chapada dos Veadeiros, Alto Paraíso e... São Jorge.

Meu Deus!!! Nada poderia ser mais perfeito. Levá-lo à cidade de seu próprio nome, envolta em misticismo e segredos naturais a serem descobertos. O pequeno vilarejo de São Jorge, incrustrado no PARQUE NACIONAL DA CHAPADA DOS VEADEIROS, a mais de 700km de Uberlândia... Local onde julgam muitos, ser um dos pontos de maior energia cinética do mundo, onde se reúnem comunidades de vida alternativa e se encontram Ufólogos e Religiosos de várias tendências. Além de ser um lugar lindo, com várias cachoeiras e paisagens.
Já estive em São Jorge em duas oportunidades, a primeira numa excursão muito louca, acompanhando a extinta banda TULANE, que ia apresentar no Festival de Música da Chapada. Muitos amigos se recordam dessa viagem e do episódio em que o ônibus, chamado por nós de Beethovem (cada parada um concerto), foi abordado num posto policial em Goiás e devido a quantidade de maconha; segundo os policiais ''a maré já tinha chego antes do ônibus, a uns 10, 20 metros”, fomos devidamente extorquidos em uns 200 reais pelos ilustríssimos senhores da lei.
No momento da abordagem, o ônibus parado no posto rodoviário, com a iminência de todas as mochilas serem revistadas, dois estudantes de Direito que estavam sentados bem nas primeiras cadeiras se amedrontaram com a possibilidade de serem autuados por porte de “erva” e não poderem depois prestar suas Provas da OAB, acreditem vocês, comeram todas as suas gramas de maconha, e chegando no camping em São Jorge, dormiram por umas 30 horas dentro de suas barracas, sob o sol esturricante da Chapada.
Algumas meninas que estavam no ônibus tiveram outra idéia; bem melhor do que a dos dois futuros advogados, de esconderem sua maconha dentro das calcinhas. Não é necessário dizer que os baseados bolados por elas, ao pegarmos novamente a estrada, eram os mais disputados.
No final das contas essa viagem foi, um pouco desgastante. Retornei com uma insolação e com um início de pneumonia, adquirida devido à exposição ao sol, ao vento poeirento e ao ar frio da noite. Chegando em Uberlândia cai direto no hospital, internado por dois dias sob soro e antibióticos nas veias.
A segunda vez que estive na Chapada foi diferente, ao menos no que tange minha saúde, mas tão divertida quanto a primeira. Não, minto. Bem mais divertida do que a primeira.
Nessa segunda aventura fui de carona junto com a namorada. Isso foi em 2004. Eu e ela cortamos os mais de 700km de estrada em dois dias. Na noite do primeiro dia dormimos em Brasília numa pensãozinha confortável e hospitaleira, perto do Planalto Central. Depois da janta caminhamos de banho tomado e mãos dadas por quadras e condomínios, na capital do país. Pela manhã, com dificuldade, pegamos carona no trevo de São Gabriel de Goiás e em São João da Aliança, já na estrada de terra que leva a Chapada, empacamos por árduas 4 horas, observando a juventude brasiliense nos fazer comer poeira, ao passar por nós em seus 4x4 e suas pick-ups com garotas só de biquíni nas cabines, nos fazendo caretas e nos chamando de “hippies” e “chinelentos”. Ríamos e cantávamos qualquer canção. Mas lá pelas 4 ou 5 horas, vendo a situação ficar complicada; o sol se preparando pra se pôr e o butiquim onde estávamos, na aridez do Planalto Central, também se preparando pra fechar, resolvemos, eu e ela, pôr em prática o plano B.

“Mocinha de óculos escuro, desprotegida e sozinha na estrada, pede carona, sentada em sua mochila na beira da estrada”.

Fui então me esconder atrás duns arbustos, perto do butiquim tomando uns golinhos da pinguinha que compramos. Depois de um tempo, um casal num Corcel L, parou e ela desembuchou o papo... “meu namorado foi ao banheiro, estamos indo pra São Jorge e bla bla bla...” enfim. Entramos no carro e caímos fora, felizes, indo pro nosso destino final.
Era agosto, mês do aniversário dela e também do Encontro Nacional de Cultura Popular. Um dia depois da nossa chegada, dois casais de amigos de Uberlândia surgiram como “sacys” num redemoinho de poeira, pra nos fazer companhia. Fechando tudo, show de Hermeto Pascoal nos últimos dias. Divertidissímo!!!

Vi então, que acima de tudo pelas coincidências e pelos designos dos Deuses, o destino perfeito prá nós será o Vilarejo de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros.

Hoje às 7 horas da manhã, a campainha de casa toca três vezes. De cara suja ainda, fui abrir a porta.
-Bom dia, Jorge.
-Bom dia, Robisson.
_Já sei pra onde vamos, cara. - eu coçando os olhos e fechando o portão, com São Jorge dentro de casa.
-Eu também já sabia.
-Bicho, vai ser demais.
Minha mochila já estava pronta à alguns dias. Acabei de arrumar o restante das minhas coisas e caímos fora. Não eram 8 da manhã ainda quando pegamos o ônibus e descemos no TERMINAL UMUARAMA. Atravessamos o bairro rumo a Rodovia. Nosso primeiro destino seria Araguari.
Quando jogamos nossas mochilas no asfalto do acostamento, nos olhamos e dissemos sorridentes.
-Fé em Deus, Robisson.
-E pé na estrada, Jorge.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Pinturas Abstratas e Desenhos Rupestres




Essa noite, enquanto ela dormia
cuidadosamente fiz tela de seu corpo

Estampas de tigres asiáticos em seus seios
luminária nas maçãs do rosto
pinturas abstratas em seus ombros

Em suas costas cravei, como asas
duas enormes velas, pra iluminar meu peito
e com a ponta da minha língua, suja da sua tinta
risquei
o interior das suas coxas

Imprimi, na sua cintura, como desenhos rupestres
a ponta dos meus dedos
e a palma da minha mão
e delicadamente, tracei o contorno da minha boca
sobre seus lábios

Quadro terminado
Tinta ainda fresca
Pendurei nas paredes do seu coração

Assinei a obra, nas curvas dos seus tornozelos.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Meus últimos dias em Sodoma




Nos meus últimos dias em Sodoma andei sobre brasas incandescentes

Contraí vírus sanguíneo mortífero e tetânico

Imprimi uma nova religião às prostitutas e frequentei das melhores saunas aos
piores ''boulevares''

Em becos escuros transei com estranhas, arranhando minha pele em arbustos e
galhos secos

Vendi minha alma diversas vezes aos demônios da noite
[impávidos donos da situação eles caminham lentos]


Você treme eles riem

Você implora eles riem

Você se fode eles riem


Nos meus últimos dias em Sodoma abracei e andei com amigos desconhecidos

nos divertindo e confabulando com mascates e falsos pastores de ovelhas.

Traficando com mercadores de absinto, mercadores de ópio, mercadores de
haxixe

em jantares com ilustres cidadãos Sodomitas devorando carne podre e doses de
cicuta

Nos meus últimos dias em Sodoma quis ir até onde conseguisse e quis testar meus
limites

testar os limites do mundo, testar os laços que me sustentam


E tive iluminação...


As estradas são longas, longas, longas

As estradas são minhas amigas

Nelas eu posso confiar

Acreditar que seja verdade onde elas dizem que vão

Sempre

Então sigo sem signo e rumo sem rumo pr'onde sei ser meu lugar
E antes que isto tudo afunde
ou se consuma em fogo

eu

quero estar bem longe
...

domingo, 22 de novembro de 2009

meu amor me agarra e geme e treme chora e mata


Jards Macalé

meu amor é um tigre de papel
range ruge morde
mas não passa
de um tigre de papel

numa sala ausente
meu amor presente

me prende entre os dentes
depois me abandona e vai
definitivamente... definitivamente

ilude desilude range ruge morde
velho tigre de virtude

nas selvas de seu quarto entre florestas
cartas
frases desesperadas
lençóis

onde me ama
furiosas garras meu amor me agarra e geme e treme chora e mata

um tigre de papel perdido nos lençóis da caça

um tigre

perdido

um tigre de papel

perdido

sábado, 21 de novembro de 2009

repasso o passo





um passo em falso
e você não está mais no mesmo lugar ...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O "se" e o nada


Enquanto ela esperava ele
Ele esperava ela

Encontro de meia noite
Butiquin bar e janela

Enquanto o sol saia
E o dia amanhece
No peito coração ardia
Queimava incendiava

Nessa vida amar não basta
Isso descobri muito tarde

Ô ÔÔ Ô ÔÔ Ô Ô Ô ÔÔ Ô Ô ÔÔ Ô
NÃO NÃO NÃO NADA NADA NADA NÃO NÃO NÃO
NÃO NÃO NÃO NADA NADA NADA NÃO NÃO NÃO

Descobriu que não queria mais
Que suas noites são terríveis
Junto a ela ou ao seus ais

Melhor está sendo deixar a vida me abraçar
A vida me abraçar

NÃO NÃO NÃO NADA NADA NADA NÃO NÃO NÃO
NÃO NÃO NÃO NADA NADA NADA NÃO NÃO NÃO

O se não é nada
se você não diz nada ?

Descobriu que não queria mais
Que suas noites são terríveis
Junto a ela ou ao seus ais

Melhor está sendo deixar a vida me abraçar
A vida me abraçar

NÃO NÃO NÃO NADA NADA NADA NÃO NÃO NÃO
NÃO NÃO NÃO NADA NADA NADA NÃO NÃO NÃO

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pós ...

Xico Mascarenhas Também Sete



pós parto
pós tudo
pós modernismo estruturalista
pós coito
pós briga rixa e amor

pós jambolada

podia ser pós carna triângulo ou pós abadá meu bem tô doidão na chincha do crioulo doido

mas é
pós jambolada
que tá pegando hoje
na segundona

enfim
hoje ele só poderia sair pra rua de bermuda e chinelo de dedo
chinelo havaianas mesmo... das tiras lá e tal...

mas não qualquer chinela de dedo
tinha de ser uma laranja, da cor dos olhos dele
havaianas laranja porque é psicodélica porque é frita porque é chinela e é samba,
porque é chique doidim, porque é mendigão
porque é segunda à tarde e a tarde pede pés no chão e se o asfalto machuca o pés,
veste sua havaiana laranja psicodélica da cor dos olhos dele... e pisa.


daí sai pra rua com seu amigo, um dos ...
e vai cantando e fazendo uns sons com a boca
e sua língua rodando rápida como chicote nas costas dos nossos ouvidos
e sua dicção solitária em meio as outras todas pessoas...
na rua se tornando imperceptível.

daí os caras partem pra encontrarem um amigo em sua casa e os caras vão rindo e falando sobre tudo e sobre eles e elas e sobre o sol a chuva e sobre coisas que nunca haviam falado antes e sobre coisas que deveriam fazer e sobre as que já não se lembravam mais e riam juntos e foi pintando um som e criaram esse som e cantaram essa música que ainda não existia e de repente ...


a polícia os aborda


numa segundona à tarde perto da Acrópole, casa dos Deuses, onde o público messianico abriu oceanos. onde eles haviam passado dois dias antes envolvidos com música, cultura e afinidades. mas hoje eles eram suspeitos, muito mortais.


daí rolou a letra da música.


“Na favela suspeito é mato.”


a polícia não podia permitir aquela chinela de dedo laranja numa tarde de segunda-feira, é abuso demais ao statusquo vigente ...


_ Passa essa chinela de dedo laranja pra cá rapá... cadê, tem mais ? não me enrola hein.



...

possuir ou posso ir ?



no amor
há verbos intransigentes demais
tsc tsc tsc
como estes

possuir?
ou
posso ir?

agora com a nova reforma ortográfica do coração, com ph
as duas palavras se uniram
segundo os magistrados
nada mais significam
do que a mesma coisa...

ou seja

nada.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

cruzeiro x atlético



um cruzeiro e atlético no interior de minas gerais
um clássico do futebol e da vida no interior de minas gerais

a cidade reunida em torno da tv num galpão na praça central
torcedores d'um lado e d'outro, juntos

cervejinha
uniformes antigos no peito
bicicletas destrancadas no corredor


cidade pequena numa segunda-feira de feriado
ainda por cima dia das crianças e elas todas soltas na praça
esperando o mundo que as vêem e as vai engolir

cidade pequena
no interior de minas gerais
no interior do brasil
numa segunda-feira de feriado
às cinco da tarde
depois que o sol esfriou
com o tempero do maior clássico do lugar

me sinto vivo demais envolto dessas pessoas ...

simples

todo o resto é uma ilusão

.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009






em montes claros, quatro horas e 40ª graus ...






.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

li
faz pouco mais de 4 horas,
meus poemas
para um público interressado
num auditório chamado hermes de paula
no centro da cidade de montes claros
na abertura do salão de poesia.
no meio do troço todo
pedi licença
e tirei meus sapatos e meias em respeito a terra onde nasci.
queria ler descalço
sentir o chão nos pés.
aroldo, o produtor do evento, havia dito
na fala de abertura
que era dia de são francisco de assis
então
nada mais coerente, pra mim
que sou devoto de santos e demônios
rezando cada hora p'rum,
do que refazer minhas oferendas humildemente
e andar com os pés descalços,
sob o céu
e
sobre o inferno,
do solo da terra que não me viu crescer ...
.

domingo, 4 de outubro de 2009

poema ritualístico sobre o amor fazendo as unhas envolto em sacos negros de lixo

antes

ele tinha os beijos dela ao acordar



agora

só o cachorro lhe lambe a boca


para dani lu
.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

pagodinho poema (medley ou pout pourri?)





Esse meu sorriso maroto é apenas a revelação do meu jeito moleque de ser. Pois se achou belo meu pagodinho, é porque com certeza você é nobre na harmonia do samba. E vê se só pra contrariar não some e aparece lá em casa, no fundo de quintal pra gente exaltar o samba.

Cadeado e eu, altos na casa dele às duas da matina, deu nisso.
Putz, na hora pareceu engraçado.

amor poema nº 2




O amor
esse indiscreto charmoso que atravessa a rua
continua sendo
dos males
o menor.

Coisa infernal negócio diabólico troço inexplicável

E quando te espero e você me espera

seja hoje amanhã ou quem sabe
continua sendo a mesma missa negra de nós dois
quem sabe um dia aprendamos a roubar a hóstia dessa sacristia... e beber

antes da cerimônia todo o vinho do padre carola
p'ra de manhã desenrolar nossos cabelos desse travesseiro
e amaciar com Confort cada minuto dos nossos dias.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

23° Salão Nacional de Poesia em Montes Claros (MG)

Fui convidado a participar do 23° Salão Nacional de Poesia que acontecerá entre os dias 04 e 12 de outubro em Montes Claros (MG).



Além de ser a primeira festa literária que participo, será na minha terra, onde nasci, onde passei diversas férias, onde vi mulher pelada pela primeira vez, onde comecei a acreditar em mula sem cabeça e em saci pererê. Simbólico. Voltar às origens e corroer suas raízes.


O Salão acontece durante oito dias repletos de atividades, entre lançamento de livros, mesas, debates, leituras, exposições, exibições de curtas metragens e videospoéticos.


04 de outubro
DIA MUNICIPAL DA POESIA

Exposição dos poemas inscritos – Instalação de 04 a 12 de outubro
Local: Galeria Godofredo Guedes – Centro Cultural Hermes de Paula – Praça Dr. Chaves, 32 – Centro (Praça da Matriz)

20:00 h
Abertura do Psiu Poético

Lançamento dos livros:
Meu Sol é Você – Terezinha Campos
13 poemas ácidos no bolso da calça - Robisson Sete
O Colecionador de Poemas – Gessimar Gomes de Oliveira

Performances Poéticas:
Jason de Morais e seu berrante

Performance musical:
Poemas cantados – Madan
Catrumano – Banda Sofia

Local: Auditório Cândido Canela – Centro Cultural Hermes de Paula - Pça. Dr. Chaves, 32 – Centro - psiupoetico@gmail.com


nos vemos por aí ...


.