quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Por que não há rimas para o teu nome



Escreverei
antes que este dia acabe
um poema sobre teu nome
que ainda sim, não impedirá em breve, o doce fim do mundo

Escreverei
antes que este dia acabe
teu nome, diversas vezes, em um poema
que, este sim, interferirá no balé dos astros e constelações
fazendo surgir assim um novo e 13º signo

Escreverei então
um poema sobre teu nome
todos os dias
com o afinco de valentão centroavante exímio
ao celebrar gol chorado nos estertores do 2º tempo

Escreverei, diversas vezes
todos os dias
teu nome em um poema
que findado, não caberá inteiro
rabiscado sobre o Trópico de Capricórnio

Escreverei, um dia
em todos os meus poemas
teu nome
após passar noites em claro
decifrando rimas e palavras perdidas
em dialetos mortos

Escreverei, um dia
um poema sem rimas sobre
teu nome
que atravessará o Atlântico
e será compreendido pelos bantos congoleses
em sua ancestral espiritualidade
como o grito primal de seus deuses do mar

Escreverei, um dia
todas as rimas de teu nome em
um poema
silencioso como um tigre, felino em riste
sob à espreita na escuridão
abissal da floresta

Um dia, não escreverei mais
pois finalmente, todos os meus poemas
serão somente
teu nome

terça-feira, 23 de outubro de 2012

São Jorge terça-feira 23 # parte IV



hoje 21h15

bom nos encontrarmos. como anda a vida? - me perguntou são jorge, sentado no balanço da mangueira.
_ frágil. na corda bamba. sempre é um novo recomeço, é toda uma reviravolta.

_ esse lugar é legal. casa verde. bonita. combina com o nome.  
_ também acho. 
_ anda escrevendo?
_ um pouco. há sempre uma necessidade desse ritual. é como um vício, um prazer.  
_ e escrevendo sobre o que? 
_ sobre muitas coisas. venho deixando o fluxo tomar conta da escrita, uma linha fina esticada entre uma idéia e perdida entre nenhum ponto à frente. minha intenção é  escrever um romance. algo realmente que eu possa entrelaçar destinos, definir tragédias. 
_ interessante
_ você devia me ajudar. 
_ como eu poderia?
_ conhece tantas histórias, já esteve em tantos lugares e viu tantas coisas acontecerem. talvez me conte uma tão boa que me desperte uma grande inspiração. já estou cansado de escrever sobre mim e sobre o que conheço tão bem.
_ histórias existem aos montes, saber contá-las é que são elas. 
_ não quero histórias, quero uma estória. quero um segredo mortal, uma grande trapaça ou uma tremenda emboscada. quero saber de algo tão engraçado que eu role de rir. quero a pior desgraça que puder me contar. 
nesse momento, são jorge me olhou sério.
_ cuidado com o que pede, meu rapaz. 
vi que ele havia ficado abalado com minha proposta.
te desafio a contar a mais desgraçada e trágica estória que puder.
_ não conseguirá suportar. 
_ não me subestime.
são jorge abaixa a cabeça e sua feição se fecha, demonstrando consternação. percebi então ter tocado em tremendas lembranças com certeza muito doloridas e que lhe devia respeito e desculpas.
olhe, não se preocupe com isso, esqueça. falemos de outro assunto. da vida. do futebol. de música. do amor. rssss
são jorge continuou olhando para seus pés
as desgraças a  que se refere. as tremendas tragédias, que busca encontrar e saber, todas elas, foram em certo momento, histórias de amor. o amor é tão maravilhoso, e por assim ser, tão volúvel, que muito facilmente se liquemorfa em  gás lacrimogêneo, soda cáustica e excremento na ponta da bota. 
não pude deixar de concordar, em certo sentido, com o que ele dizia.
veja bem robisson, lhe contarei uma estória, ela aconteceu na frança por volta de 1920. havia um homem em paris, se chamava amadeo. era pintor. um bom pintor. pintava aquarelas muito vivas e iluminadas, influenciado por cézanne e picasso, chegou mesmo a travar encontros com esses e outros pintores, qua admirava.
amadeo vivia na parte sul de paris num casebre, que fora de seus avós; imigrantes tunisianos, e depois que fora de seus pais e agora dele. sua única irmã, mais velha, morava do outro lado da cidade e os dois pouco se viam. amadeo não tinha parentes em paris. e não havia família em lugar algum. tios primos sobrinhos. não havia família para amadeo, simplesmente não existia. a tunisia era um país destruído pela guerra civil, destroçado em sua árvore genealógica. quantas pessoas tiveram e mudaram de nome, em seus novos países, aos se instalarem, fugindo da guerra? ah as guerras,  destroem demais. 
aos 30 e poucos anos, amadeo sobrevive da venda; aos amigos simonn e vylova, da pequena horta que cultiva em sua propriedade, e dos quadros que pinta. lhe sobra tempo razoável em seu dia pra o trabalho na horta, para a pintura e os afazeres domésticos e de conserto de sua velha casa de taipas e andaimes.  vive razoavelmente bem, em sua luta diária pela sobrevivência. 
- sim?
_ pois bem, muitas vezes as enormes mazelas que a solidão nos propicia, refletem na sua alma e quanto mais vasto e desértico seja seu coração, mais desventuras esse homem terá. 
_ mas você não disse que o amor é um veneno, agora mesmo?
_ sim, mas não estou dizendo sobre o amor, somente, mas sobre a profundidade que estão cravadas seus medos dentro do seu coração. há corações que temem tanto o mundo e o desafio da vida, que se tornam tão maus quanto puderem, buscando contra atacar e aplacar o vácuo que o medo provoca. a paralisia, a estática. nunca aprenderão a amar verdadeiramente, no máximo se relacionarão com outros homens e mulheres pela vida afora, e só. 
 entendo. 
_ e amadeo era um homem com um coração profundamente solitário. freqüentava bordeis sujos, e se humilhava pedindo afagos. trôpego, quase sempre era escorraçado dos ambientes, e visto amanhecendo dormindo nas calçadas, sob as marquises das lojas. não tinha amigos e todos se acostumaram com essa realidade. viciado em morfina adquiriu, antes dos 30 anos, uma tuberculose crônica e uma febre vaporosa que o cobria de tempos em tempos, o deixando acamado e aos cuidados dos seus únicos amigos, o casal de judeus simonn e vylova, que talvez, se não fossem seus patrões, assim digamos, não se incomodariam em deixá-lo à própria sorte.
_ um grande artista bêbado?
_ um homem com uma dor. 
_ entendo.
_ apesar de todas essas complicações financeiras e de saúde, amadeo gozava de certo prestígio e reconhecimento da sociedade que lhe acolhia sendo o filho de zlavoc, o marceneiro, como era chamado seu pai. ao perceber que amadeo  tinha vocações para as artes, zlavoc não quis que seu filho dedicasse tempo ao desenho e a pintura, e o sobrecarregava nas tarefas pesadas diárias. somente com a morte do pai, é que amadeo pôde se dedicar a pintura como profissão. levando sua vida solitária e desregrada, porém batalhadora e honesta aos olhos de seu círculo social, amadeo ainda era considerado um rapaz que tinha salvação e rumo. e um buchicho ao seu redor, na boca principalmente das moças, foi crescendo e fantasiando a lenda de que era moço rebelde e que só sossegaria, quanto encontrasse uma esposa e formasse uma família. 
conhece uma jovem artista, então com 19 anos, Joanne, pintora como ele. moça tida como tímida, mas de olhos insinuantes à emoldurar seus silêncios. muito pobre, joanne se submeteu primeiro a posar para amadeo por uma pequena quantia de dinheiro e algumas frutas secas. logo em seguida, depois de alguns dias e alguns quadros produzidos e já na provocação da intimidade, acertaram que não haveria mais pagamento, pois assim não estaria correto, eram enfim amantes e joanne se mudou para sua casa, no fim de poucos dias.  
_ se casaram?
_ sim, mas não sem antes uma grande conturbação, para a época, os envolver.
amadeo pinta joanne nua. expõe seu quadro numa galeria e a apresenta como sua modelo, musa e futura esposa. para os carolas da época e as senhoras e fino trato da sociedade francesa, era um absurdo uma mulher posar nua, para o marido a pintar e expor daquela forma. isso era papel guardado às prostitutas e mulheres de baixo calão. amadeo alardeia certa fama após a exposição e joanne que tinha grande talento, passa a viver a sombra de amadeo, produzindo suas telas por hobbie, em casa e sem motivação. 
nos anos seguintes a vida segue dura e produtiva. o casal tem um filho e a situação financeira melhora razoavelmente. mas, com a frágil bonança que adquiriram, cresce em amadeo os vícios carnais e o mau caratismo. começa a jogar e a viver constantemente na zona boêmia parisiense, pintando agora os dorsos nus das jovens concubinas francesas em seus próprios leitos cheirando a sexo, e aceitando trabalhos de gigolôs para que transmitisse a beleza de suas mulheres, para o deleite dos clientes, em enormes telas que emolduravam os grandes salões dos bordéis mais freqüentados da cidade. vendia suas telas e sua arte puramente para pagar dívidas e dívidas, contraídas em apostas e noitadas infernais. nessa época, sua tuberculose piora e o vício em morfina e ópio o torna mais irritadiço e delirante. já não consegue se movimentar sozinho e tem crises tremendas de tosse.
_ meu deus. 
_ aos poucos, a família se desestrutura e vai à ruína. enclausurados dentro de sua própria casa, agora joanne espera o segundo filho do casal. amadeo vende seus pertences, e até ferramentas de estúdio e trabalho, para comprar comida. se alimentam de batatas e lingüiças velhas. passam dias isolados do mundo, tão fracos que não conseguiam chamar ajuda. são encontrados por simonn, sujos, famintos e desidratados. joanne está delirando e amadeo não consegue pronunciar uma palavara, devido ao estado de inanição. ambos são internados na casa de saúde, joanne está prestes a dar a luz e a qualquer hora pode entrar em trabalho de parto.
a noticia corre a cidade e as obras do pintor odiado por sua bela arte, por seus nus, sofre uma valorização enorme. nas casas de prostituição, terços são rezados pela sua saúde, outros pela sua alma. 
 _ meu deus, e esse amadeo vez sucesso? nunca ouvi falar?
_ o sucesso não importa, meu amigo. ele não foi feliz. o sucesso, que se acredita que ele teve, com toda a certeza, trocaria por uma serenidade verdadeira em sua vida.
_ sim.
_ amadeo morre numa manhã, sozinho como viveu a vida, no quarto 17 da casa de saúde. joanne recebe a triste notícia, visita em silêncio amadeo, e lhe deixa uma mecha de seu cabelo negro. no dia seguinte, grávida, se atira da janela do seu quarto. 
_ putz. 
_ por ter suicidado, o padre não quis realizar o enterro, e sem família seu corpo não foi reclamado, e permaneceu exposto sob o sol, enegrecendo a pele, antes alva e linda.
um homem recolheu o cadáver de joanne e o levou ao sr. simonn, que aterrorizado o mandou embora. joanne foi atirada na beira do rio, onde os urubus e pequenos abutres que rondam as estrebarias de paris, devoraram suas vísceras, e onde depois sua carcaça, com seu filho na barriga, apodreceu entre as flores e a grama verde, por muitos dias ainda, e se misturou ao solo pela eternidade adiante. amadeo foi enterrado nu, em uma cova rasa do cemitério da casa de saúde. 
são jorge me olhou nos olhos, como sempre fazia, quando dizíamos algo realmente importante. e eu disse …
_ e o amor, jorge? 
_ foi morto. 
_ por eles?
_ não. por nós. 
_ como assim?
_ não conhece essa história?
_ não
_ pois então. se familiarize. ela é a sua.
_ claro que não é minha. é muito triste. é uma história desgraçada. por isso nunca gostei de dizer essa palavra.
_ faz bem em não dizê-la. não digo que é, ou será a sua história, mas que é a sua história, por que pode acontecer com qualquer um. amor e loucura são faces da mesma moeda, meu amigo. mataram o amor muitas vezes na vida desse homem, amadeo. não foi o amor de sua mulher que o matou, esse eles viveram, o quanto puderam. foi o amor próprio. fizeram desse homem fantástico, um artista sensível e inteligente, um bicho, o tiraram a dignidade e o deram um pedaço de carne podre para comer como um cão do infernos. esse homem, robisson, foi um dos muitos homens que caminham mortos sobre a terra, todos os dias. 
realmente a historia era triste, talvez não a mais triste estória que exista, mas bastante trágica.
_ será que ajudei você? a te inspirar para seu novo livro?
_ sim. acredito que sim
_ que bom. 
_ robisson?
_ diga. 
_ aceita uma manga? - e uma linda fruta verde e rosa caí, exatamente, nas mãos do santo -não sei apenas contar boas estórias. já fui moleque também,, sei como trepar em árvore e pegar fruta no pé. rsss
_ entendi, e por que não subiu e pegou ao invés de transportar a manga pra tua mão?
_ se esqueceu, ¨para os poetas algumas coisas são bem complicadas, e outras muito fáceis¨. 
se movimentou no balanço, rindo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

o rio de rimbaud




pingo
cor
e
lírio

nos
olhos
e
olho

o
Rio
e
rio

"e
também
posso
chorar"

mas

sou

risos
e
rios

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Mensagens do Front : São Paulo



Pela manhã ao acordar, nos demos um poema de bom dia e espreguiçamos. Gosto muito do jeito que ela têm, logo pela manhã, já sorrindo com os olhos. Eu geralmente acordo como se tivesse saído da Batalha de Waterloo.

Levantou-se da cama, foi escovar os poemas no banheiro e se banhar. Fazia frio e o barulho dos poemas caindo do chuveiro, me fizeram querer poder dormir mais.

Abri a janela, e mesmo a contragosto, acendi um poema olhando a cidade, sua fumaça fazendo ziguezague e entrando pelo meu apartamento. No horizonte, até onde a vista alcança, na rotina da minha cidade, o que se vê são poemas de vários andares.

Poemas, poemas e mais poemas.
E em cada um deles, tantas vidas, tantas pessoas.

_ Amor _ ela sai do banho _ Lá no seu trabalho seus colegas não perguntam se nós não vamos ter um poema ?

_ Perguntam. Até já pensei no nome dele.



sexta-feira, 6 de julho de 2012

Música



ela é mais forte que você
ela se impõe ela se instaura e te eleva
renega tua face cotidiana e te liberta solitariamente
pelas esquinas, nos pontos de ônibus
ou em frente à lojas de conveniência
move o ar à sua volta e negocia vácuos na retidão da nossa tola seriedade
não importa quem você seja ou seja qual a música
ela é um deus secreto e sacana
a música ruge, range e reza
a música dói, machuca e fere
a música ri, masturba e gargalha
a música ilude, ilumina e inaugura
a música longe
a música love
a música leve
a música da art naif
a música
a sua música
aquela música
a nossa música

"lembra?"

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Uma viagem em Techolcia




São centenas de abelhas se aproximando? 
Não, milhares


Céu fechado sobre mim

Deliro

Estou suando. Estou negro e cadavérico
Estou sendo assassinado e há moscas em minha volta
Sou Abrahan Lincoln num quarto escuro

Hienas, cães do mato e ratos são minha platéia
Aguardam em silencio para entrarem em cena
Vasculham ao redor, farejam, revolvem-se espumando e mastigando o nada

As hienas são horríveis, porque elas riem realmente
e elas tem raiva, e sobretudo, fome

Os cães do mato, subservientes, esperarão a hora em que a alcatéia abandonará minha carcaça; já bem dilacerada
e se servirão dos músculos e das partes deixadas pra trás pelas hienas

Os ratos roerão; as pontas dos meus dedos, minha língua e meus órgãos genitais

E de todo meu resto, o Sol; que assumirá seu posto, se incumbirá de dar calor
de tratar ao bronze eterno
somente agora meus duros ossos; num deserto
em alguma viagem, em que me perdi
num verão indígena
em Techolcia

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Avant Stéreo





depois do próximo outono
algumas cidades já estarão incendiadas

algumas calçadas haverão acolhido em seu colo de concreto
cadáveres dos filhos de alguém

vários jornais estamparão fotos de ilustres desconhecidos
flanando em belo e rebelde desfile

crianças aprenderão o que o gesto;
o grito silencioso, o urro,
de um punho erguido
significa

enquanto do outro lado da praça

o balé improvisado de se esquivar da morte
no dorso fúnebre
de uma avenida em marcha

e

ao seu redor,
os seus
ao redor do seus,
nós
em volta de nós;
juntos

cada
um
um
universo

venho pensando _ “pessoas são estrelas”

ultimamente
sempre que olho pro céu
acredito num certo tipo de
novo e estranho
Deus
que suspira ao redor e move o ar à sua volta

e esse Deus se chama RUA


#

terça-feira, 17 de maio de 2011

Para antes do café

foto: Mariana de Lima


Os rapazes estão soltos pela rua
As meninas dançam no asfalto ao luar
Borboletas fazem cócegas na cintura
Minha vida a dois passos do seu calcanhar
Displicentemente atiro pedras sobre o muro
Pego carona, sem ninguém pra me acompanhar
Invento moda, faço festa, fumo bagulho
[e desligo a TV
na hora da novela para ouvir você cantar


“Rasga o peito e deixa sangrar
não saber sambar direito e não ter olhos pra te incomodar...
_ 'Será que algum lugar existe um bar 
que nunca fecha?
Com bêbados maravilhosos nos saudando,
enquanto o sol
nos risca em 
flechas...'”

quarta-feira, 20 de abril de 2011

reza




reza lenta escrita à faca que sua pele inflama


#

domingo, 17 de abril de 2011

Passeio pelo bairro do Avarandado


Sábado
sete da noite
homem arruma uma mala
mulher entra no quarto


Ontem a polícia esteve aqui.
Mesmo?
Odete que os atendeu.
...
E o que eles queriam?
Falar com você.
Comigo?
Com você.
Hum...
...
...
O que está fazendo?
Bem, eles devem me procurar novamente.
Mas o que aconteceu? Porque?
...
Hum ... acho que matei alguém.
...
Como assim?
Não sei, não me lembro...mas acho que matei sim.
Você matou... alguém?
...
...
...
Você fala sério sobre isso.
Sobre o que?
Sobre matar alguém?
Falo.
Mas o que aconteceu, como não se lembra?
...
Não me lembro.
E como sabe que matou?
Não sei, apenas sinto.
Pára com isso, está me assustando...
Eu sei.
...
Pra onde você vai?
Não sei.
...
Mas e se a polícia voltar?
Diga a verdade.
Que você matou alguém?
Não, que não sabe pra onde fui...
Mas e suas coisas...?
Guarde-as. Não tenho nada mesmo.
...
Espera, pára. Você esta bem? O que aconteceu ontem? Você está estranho e me assustando.
Eu sei.
Pare de dizer isso...abra a boca e fale comigo.
...
...
...
Adeus.
Não, volte aqui. Não vou deixar você sair assim...
...
...
Não me impeça por favor.
Eu quero que fale comigo... você não está bem, isso não pode ser...o que aconteceu, eu quero saber.
Ontem eu matei alguém...
...
Como assim?
Dei um tiro, acho.
Mas você nem tem arma.
Tenho.
Ahhhhhhh
....
Adeus.
Não, espera. Onde aconteceu, alguém te assaltou, porque andava armado?
Não, não fui assaltado...não sei por que estava armado.
Mas isso não faz o menor sentido, você não diz nada com nada, como assim atirou em alguém? Aonde você estava? Fala.
Não me lembro muito bem, mas...
...
...
...
foi bem no peito...
O que ?
O tiro.
...
...
... isso mesmo, foi bem no peito.
Mas porque andava armado, onde comprou essa arma?
Comprei perto do antigo mercado, de um cara, foi barata.
Para que?
Acho que pra matar alguém.
Ahhhhhhhhhhhh

Não chore, não adianta mais nada. Apesar de que chorar faz bem, quando se tem motivo e vontade.
O que está acontecendo, você está louco?
Não, não, eu apenas matei alguém e isso é contra a lei...por isso a polícia está atrás de mim.
O que você está falando? Como assim “matei um cara”?
Como sabe que era um cara, se não lhe disse?
Eu não sei seu desgraçado, louco.
Mas era...
...
E daí? Não me importo.
Então não chore amor.
Isso tudo é mentira pra você ir embora. O que é, não tem coragem de assumir que não é mais feliz comigo, e inventa essa porra de história ?
Não, é tudo verdade, mas ainda não me lembro muito bem...
Seu desgraçado, maluco... o que está acontecendo?
A polícia está atrás de mim porque matei alguém e você diz que não te amo mais...quem é mais egoísta de nós dois?
Quem você matou?
Não sei...
Ahhhhhhhhh...você está drogado, ou o que? Some por um dia e volta louco, o que aconteceu, como assim?
Também não sei ao certo...
...
...
...
...
Você vai para o sítio?
Não, lá é o óbvio.
Pra onde vai então?
Não sei.
Mas é pior fugir da polícia, e se te pegam?
Calma, o pior já passou.
...
Você está doente amor. Isso não é real. O que aconteceu com você?
Meu bem, acho que já estou morto...
Como assim?
...
...
...
...
...
...
Olha
...
...
Ontem, às 3, quase 4 horas da tarde, saí do escritório, peguei um ônibus pro Avarandado... deixei meu carro no estacionamento, inclusive ainda deve estar lá.
E...?
Lá é um bairro de classe média, você conhece, já fomos por aquelas bandas...não sei muito ao certo porque quis ir pra lá...talvez pegasse o primeiro ônibus que aparecesse... Não, não, escolhi de alguma maneira o Avarandado.
Sim, sim. Continue meu bem, fale.
Lá tem uma avenida arborizada cheia de cestas de lixo e pessoas passeando de bicicleta na rua...
...
...
...
Diga.
Querida, eu simplesmente desci do ônibus, sentei numa cadeira em frente a uma padaria e...
...
...
...
...
atirei num homem que vinha descendo a rua. Mas não foi ao acaso. Não, eu o escolhi. Antes havia apenas crianças andando de bicicleta e mulheres comprando pães, uns velhos também apareceram...e um cara magro e feio também surgiu. Nesse eu quis atirar. Mas esperei alguém melhor, realmente melhor, melhor que eu.
...
Você não pode estar dizendo a verdade. Porque fez isso?
...
Não sei amor...eu precisava matar alguém.
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Não querida, não chore. Você vai ficar bem. Nossas rendas lhe darão uma vida regrada, mas sem dificuldades.
Você fala como se nunca mais fosse voltar. Por que você fez isso? Você ficou louco?
Sim, acho que sim, meu bem.
...
...
...
Adeus

terça-feira, 22 de março de 2011

Matar ou Morrer!!!

"Deseim" de Luiza Guedes


Começa assim...

O risco profundo da tinta
na pele
O som silencioso das palavras
nos olhos
A cócega estranha da voz
na língua
O sorriso singelo; dela
na boca
O toque sutil dos dedos
na nuca
O suor envenenado escorrendo do colo
aos seios

o abraço eterno dos amantes despencando em gozo sobre e adentro o precipício
suas mortes anunciadas
congelados num instante divino
seu sexo abrindo novas dimensões
trazendo Atlântida submersa à superfície
existindo eternamente num mero segundo etéreo

e à noite rondando suas casas
soturno; o desejo

e d’agora em diante é matar ou morrer
cuidado!!! perigo!!!
à espreita sorrateiro no canto atrás da porta esperando
a hora certa
de pular no seu pescoço

não abra sua janela
não cubra o rosto ao dormir
revólver engatilhado sob o travesseiro

viver na corda bamba, na ponta da agulha,no fio da navalha
sangue coagulado nos lábios, surra da própria vida

então
põe gelo, merthiolate

e beije a boca
de quem você queira

pois antes que morra de desejo;
mate-o

#

sexta-feira, 18 de março de 2011

Carnaval de Março


eu
uma
hora quero
o
seu
cheiro
no
meu
cabelo
e
não
vou
esperar isso
ou
o
tempo pode
me deixar
louco
e
pouco
a
pouco
vir
a
desaparecer
junto
à minha voz
cantando seu desértico nome
em suave e breve tom
rouco
minha imensa vontade
de
você
porque amores acabam
marés sobem
sóis se põem
e
a vida é breve
ou
quem sabe minha
pressa
possa sugerir
que
eu
reze uma
prece
pra amansar minha calma
em lugar de lhe avançar a
nuca
subitamente
como acho que deveria fazer
e assim evitar
nunca
ter escrito
isso

#

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

um dia de náufrago




Meus ridículos pontiagudos cravados no ombro como bandeira branca, na minha vaga idéia de naufrágio.


#

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quis Kiss Me - canção/poema em construção


Quando um dia pela manhã
Meu carro estacionado no portão
Meu cachorro me sorriu latindo

E de todas, quem eu lembrava era você

Comprei um postal do fim do mundo
E pintei dois quadros dos seus olhos

Cabelos longos; quis contar todas nuances do seu rosto

Quis contar as conchas do mar
Quis dizer meus segredos pra você

Vai...

#

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Papo com Blog Molho Livre (GO)

Nesse link
http://molholivre.blogspot.com/2011/02/entrevistando-robisson-sete.html


entrevista onde falo sobre sobre literatura, música e cortes de cabelo dos anos 60.


#

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Poema de Mae West a beira da morte


"as alturas me dão náuseas
facas deixam marcas
armas fazem barulho
venenos cheiram mal
águas me atormentam
cordas arrebentam

é
prefiro viver!!!"

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

céu e inferno


"meu inferno
é o céu
da sua boca
"

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Rio de Janeiro



Uma língua lasciva percorre as ruas do Rio de Janeiro
e varre a cidade em sopro libidinoso
um vento marítimo toca e cora as maçãs do rosto das moças
e os homens as devoram; suas carnes, em brutos pecados cotidianos

Praia do Flamengo
Rua Machado de Assis
Morro da Mangueira
Rodoviária Novo Rio
Lapa

Motoristas de ônibus fumam cigarros
Artistas da Globo me dão informações
“Chuva forte é a que vem do Cristo”
Um Hotel com o nome dela
Uma rua chamada desejo

Na praia, tecer desvarios ao nascer do sol
e bater palmas ao seu poente
pois sabemos que quando a noite inicia sua dança
as feras se soltam e permanecem a espreita
e desde os pontos de ônibus aos restaurantes da moda
vai-se logo sentindo na fronte o hálito da selvageria e violência oculta
evocando suor sexo e morte
e com um sorriso irônico e despretensioso
a dor, vai afinando seu violão
a tristeza, vai esticando o couro do pandeiro
e a tragédia puxando sua cadeira na roda de samba
e assim todo dia permanece sendo somente mais um dia
na cidade do Rio de Janeiro

Já nós, em nosso caminho lento
de flaneurs, braço dado a João do Rio
fazemos de todos os dias
nosso réveillon
e eu pulo então, não somente sete
mas milhares de vezes
com meus dedos
ondas sobre seu corpo
desejando pra nós
o que sabemos ser nosso

pois
o Rio de Janeiro nos faz acreditar que a vida pode ser boa
e sobretudo, que toda poesia não vale nada

*este poema contêm citação do escritor Rafa Carvalho

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

o político e o poeta


a diferença entre o político e o poeta é
que o
político
se interessa por algumas pessoas, e
o poeta
se interessa por todas elas

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vênus in Chamas


Vênus saiu das águas numa manhã de Sol muito forte em Copacabana. De repente, algo ocorreu na praia, algo peculiar. As pessoas, homens e mulheres começaram a observar aquela moça. Tão bonita em sua beleza irretocável, era algo simplesmente diferente, extasiante. Ela era muito mais bonita do que qualquer banhista, modelo, atriz ou vizinha de condomínio. Um corpo perfeito, um cabelo que começou a secar ao sol e que formava um volume que realçava seus olhos e rosto. Ela era o desejo em pessoa. Ao ser vista, pensamentos ardentes se materializavam no ar. O seu jeito era febril. Ela era etérea e significava simplesmente, tudo. Era impossível não olhá-la ao caminhar atravessando a areia quente.
Ajoelhou e disse a um rapaz - atônito, ele tremia.

Posso pegar seus chinelos.
São da minha mulher... mas pode sim
E a canga?
Claro, leva.

Continuou seu desfile, num gingado sublime.
Passou na barraca e pegou uma água de coco. Simplesmente apenas tocou o balcão e sorriu aos freqüentadores.
Ao chegar ao calçadão, o trânsito foi seu mar na cidade.
Distraída, passeou seus chinelos e dedos delicados pela vista dos retrovisores e vidros fumês, e os motoristas – ah! os motoristas !!! – eles começaram parar, descer dos carros e filma-la.
A claridade da manhã incidia sobre o caos fazendo tudo ficar leve pueril e simples. As mazelas os defeitos as raivas os pecados os segredos e as desgraças, e também os medos, tudo se dissipava ali, na instância daquela mulher.

Aos poucos, uns passos rápidos às suas costas surgem.

Ei ei minha mulher quer os chinelos dela de volta, e a canga
Os chinelos...?
É sim, sim

Ela o olha, ele não resiste
Ele a beija eles se beijam
Que isso você ta beijando essa mulher, que porra é essa

Eles se separam
Que putaria é essa porra
Nada ... nada... você é linda demais, meu Deus


Ele se ajoelha e pega sua mão
ela sorri
Ele treme sua mulher o bate
ele sorri

Que que ta acontecendo aqui (um mortal pergunta)
Essa mulher aí ta tirando a roupa no calçadão, ta doida ficando pelada (uma outra mortal diz)
Essa mulher ta mexendo com o meu marido ( a mulher dele diz)

Os olhos esbugalhados da multidão e o sorriso de Vênus se degladiam.
Eles venceram ela.
Todos querem se aproximar, ver de perto, sentir o cheiro, poder observar detalhes, nuances, pintas, formas. Há muitas vozes no ar (mortais), um turbilhão de pessoas toma o espaço em volta dela, e Vênus é tocada, beijada, acarinhada, arranhada, esmurrada, quebrada e feita em pedaços, em poucos minutos.

Alguns saíram com nacos do seu corpo envoltos em suas camisas, correndo pela avenida e sendo perseguidos por outros menos afortunados, uns levaram suas partes ao mar e nadaram até o meio do oceano atlântico pra morrerem loucos apenas pra ficar na exata solidão com seu pedaço ideal dela; fosse uma mão apodrecendo do sal quente do mar, ou uma parte do seu lábio inferior e queixo, cova e pele morta.

Isso foi numa manhã em Copacabana...
O fato não repercutiu.
Foi hedonismo supremo.
Todos os envolvidos negam e ficou o pensamento pra quem não conseguiu sua parte da deusa; mesmo se indignando com os estupros e casos de pedofilia nos telejornais, a vaga idéia “- mas dela eu devia ter arrancado um pedaço”

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