segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Ponta de Lança Africano (Umbabarauma)
Texto inspirado na canção do disco “África Brasil” de 1976 de Jorge Ben
Pra baixar o disco vai aqui ô ... http://nobrasil.org/0358-jorge-ben-africa-brasil/
Praia do Leblon
Domingo de Carnaval de 1976
_ Porra Africano, toca essa bola.
Africano com um meio sorriso no rosto, finta um, dois, três antes de chutar no gol, o goleiro se esforça e joga a bola pra escanteio.
_ Vai ser fominha hein negão.
Africano tem 18 anos, preto como petróleo, seus antepassados Bantos vieram em navios negreiros e foram escravos no interior da Bahia. Ele é de falar pouco e quando joga bola arrebenta. Juvenil do Flamengo, espera sua chance no time principal. Ele sabe que vai chegar sua hora. Todos sabem.
O escanteio é batido, um jogador cabeceia, o goleiro espalma, a bola sobra para Africano. Ele podia chutar de primeira, mas traz a pelota pra perto de si, a mata lindamente como se a bola estivesse suavemente colada aos seus pés descalços e calejados da areia quente da praia. Dá um cortezinho pra esquerda, olha rapidamente de soslaio por sobre o amontoado de jogadores à sua frente e bate pro gol. A bola caprichosamente passa por todos. Morre na rede do lado direito do goleiro, que apenas olha.
No caso de Africano a bola não morreu na rede, nasceu.
Ele sai gargalhando a passos largos, com suas pernas esquias de canelas duras moldadas no sobe e desce das escadarias do morro.
3 a 0.
Próximo time.
A pequena torcida que assiste, aplaude o golaço. Ele imagina os mesmos aplausos vindos das arquibancadas do Maracanã, num jogo de final.
Sai do campo em direção ao mar, pra dar um mergulho.
_ Porra negão vai afinar é ? Não vai jogar mais ?
_ Não.
_ Bichinha.
_ Vai se foder Boiadeiro.
Boiadeiro é amigo do Africano desde moleque, e mesmo sendo quatro anos mais velho, era o amigo, mais forte e malandro, que o defendia nas brigas de rua. Trabalha no Jóquei Clube, cuidando dos cavalos, coisa que detesta.
“Só grã-fino, que acha que o mundo parou pra eles. Gente metida.”
Sonha em mudar de vida, juntar dinheiro e ir com a mulher e as duas filhas para o Mato Grosso, estado onde nunca esteve mas que seu pai conta aos quatro ventos ser o lugar mais lindo do mundo. Mexer com coisas de vaqueiro, cuidar de gado e não ficar limpando a bunda de cavalo de madame. Se o Rio é a cidade, o Mato Grosso é o Estado Maravilhoso. Ao menos pra Boiadeiro.
Saindo do mar, em direção ao Quiosque de São Vitor, o papo dos dois descamba na rivalidade Fla x Flu.
_ Porra, o Maracanã chama Mario Filho porque ele era torcedor do Fluminense. O Chico é Flu. Dolores, aquela gostosura minha vizinha é Flu. Poxa, o Flamengo saiu do Flu amigo. Não adianta, vocês tem de pedir “bençá” pra nós.
_ Que nada rapaz, Flu é time de grã-fino igual àqueles que tu tem de babar ovo nas corridas do Jóquei. Mengão é time da massa. Gente pobre igual à gente tem de torcer pro Flamengo. Você acha que eles aceitam qualquer negão lá no Flu. Tem de ser filho de empregada de algum cartola pra jogar lá.
_ Ah para com isso Africano, você não sabe do que está falando. Fluminense é povão, primeiro time do Brasil.
_ Ah isso não, você tá por fora mesmo Bóia. O primeiro time é o Vasquinho porra. Já veio com os portugueses, chegou aqui e tomou de 4 a 0 do time dos índios, que nem sabiam jogar bolar, só pegar coco.
Hahahahahahaha.
Os dois caem na gargalhada que não se agüentam e sentam pra tomar uma cerveja.
Ao longe, em alto mar, fora da arrebentação, na calmaria do oceano, um solitário surfista sentado em sua prancha retira do bolso do short um saquinho plástico muito bem vedado, onde há um isqueiro e um baseado. Acende e observa, em silêncio, toda a cidade do Rio de Janeiro à sua frente, tendo como testemunha apenas a maresia do Atlântico e seu imenso amigo sol.
..........
domingo, 19 de setembro de 2010
Mão e luva - Pedro Luiz e a Parede
vejam e ouçam no iutubi
http://www.youtube.com/watch?v=wIyGjMtvrAU
(Pedro Luís)
dia de chuva
tão triste e tão bom
no espelho um recado de batom de uva
era o fruto feliz
da noite passada
você foi embora
acordei e nada
luva e mão, mão e luva
vamos passear de guarda-chuva
mão e luva, luva e mão
nosso encontro parecia perfeição
vamos voltar o relógio
fotografar os segredos
quero você como um credo
vamos nos dar privilégios
meu sol
pingos na calçada
sou só chuva e lágrimas
vem já
antes que anoiteça
tecer noites e páginas
luva e mão, mão e luva
vamos passear de guarda-chuva
mão e luva, luva e mão
nosso encontro parecia perfeição
.
sábado, 18 de setembro de 2010
Maryllu
Essa é minha amiga
Maryllu
http://maryllu.wordpress.com/
Adoro seu despudor
Se mulher eu fosse,
eu seria como ela
Iríamos disputar os mesmos rapazes.
Leiam-na
Maryllu
http://maryllu.wordpress.com/
Adoro seu despudor
Se mulher eu fosse,
eu seria como ela
Iríamos disputar os mesmos rapazes.
Leiam-na
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Namoro
Compromisso é gostar nas Quartas
ir às profundezas nas Sextas
apaixonar nos Sábados
e não esquecer de ligar nas Segundas.
Desprendimento é dançar na chuva até sentir frio
e aí sim tirar a roupa.
Desinibição é romper o desconforto com desconhecidos dizendo simples “oi”.
Gosto é lamber até doer a língua. Sexo é quando você é você.
Tesão é comê-la de colherinha.Vontade é não evitar falar.
Saudade é
destampar garrafas vazias
mas plenas do seu cheiro.
Gozar é evitar a morte
... e morrer.
.
A Extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakowski no verão da datcha
Vladimir Maiakowski 1920
(trad. Augusto de Campos)
A tarde ardia com cem sóis.
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava no ar e nos lençóis da datcha onde eu estava.
Na colina de Púchkino, corcunda, o monte Akula, e ao pé do monte, a aldeia enruga a casa dos telhados.
E atrás da aldeia, um buraco e no buraco, todo dia, o mesmo ato:
o sol descia lento e exato.
E de manhã outra vez
por toda a parte lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia isto começou a irritar-me terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
"Desce! Chega de vadiar nessa fornalha!"
E grito ao sol:
"Parasita! Você, aí, a flanar pelos ares, e eu, aqui, cheio de tinta, com a cara nos cartazes!"
E grito ao sol:
"Espere! Ouça, topete de ouro, e se em lugar desse ocaso de paxá você baixar em casa para um chá?"
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim sem perder tempo o sol alargando os raios-passos avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas, pelas portas, pelas frestas, a massa solar vem abaixo e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego, me diz o sol com voz de baixo:
"Pela primeira vez recolho o fogo, desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá, pegue a compota, poeta!"
Lágrimas na ponta dos olhos - o calor me fazia desvairar - eu lhe mostro o samovar:
"Pois bem, sente-se, astro!"
Quem me mandou berrar ao sol insolências sem conta?
Contrafeito me sento numa ponta do banco e espero a conta com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade fluía sobre o quarto e esquecendo os cuidados começo pouco a pouco a palestrar com o astro.
Falo disso e daquilo, como me cansa a Rosta, etc.
E o sol:
"Está certo, mas não se desgoste, não pinte as coisas tão pretas. E eu? Você pensa que brilhar é fácil? Prove, pra ver! Mas quando se começa é preciso prosseguir e a gente vai e brilha pra valer!"
Conversamos até a noite ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos, os dois.
Logo, com desassombro, estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
"Somos amigos pra sempre, eu de você, você de mim. Vamos poeta, cantar, luzir no lixo cinza do universo. Eu verterei o meu sol e você o seu com seus versos."
O muro das sombras, prisão das trevas, desaba sob o obus dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz, chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa e a noite lenta quer ir pra cama, marmota sonolenta, eu, de repente, inflamo a minha flama e o dia fulge novamente.
Brilhar pra sempre
brilhar como um farol
brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar
que tudo mais vá pro
inferno
este é o meu slogan
e o do sol.
...................
1. Datcha - casa de veraneio.
2. Versta - medida itinerária equivalente a 1,067m.
3. Rosta - A Agência Telegráfica Russa, para a qual Maiakovski executou cartazes satíricos de notícias - as "janelas" Rosta -, de 1919 a 1922.
....................
poema dos meus prediletos...
que mais dizer.
.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
dos restos de 2009
Dia amanhecendo
escutando John Coltrane
lendo um livro que já li
janela do quarto aberta
vento frio
sem camisa
morto de fome
penso num mistoquente
são seis horas da manhã de dezembro
o ano acabou
entre tantas outras coisas que acabaram nesse doismilenove
sábado, 4 de setembro de 2010
Três anos de Hotel Sete ...
Sábado, 21 de Agosto
Acordei
Lavei o rosto
Passei no espelho o resto da noite que existia sob os olhos e minhas olheiras ...
Do bolso da calça tirei a chave do meu quarto
antes eram ácidos ou outros
Me dei conta que hoje já sei onde durmo
e que quando cheguei aqui me perdia nos andares
Hoje abro as portas e indico os quartos pros novos inquilinos e novatos
Percorri o corredor e desci as escadas
Passei a mão no jornal do dia
Na rua o mesmo trânsito iniciando sua transa, seu vai e vem
E eu, complexo transeunte, relembro minha primeira noite aqui dentro
http://hotelsete.blogspot.com/2007/08/nusea.html
A cabeça dói
Tudo a sua volta gira, se movimenta
Seu próprio estômago soca sua garganta
Golfadas de vômito
Engulho e dormência nas pontas dos dedos dos pés
E esse sol intenso desequilibrando as paredes e o teto
São apenas 7:47
Depois disso foram muitas festas, encontros, brigas, amores e noites bem vividas e mal dormidas
Certas madrugadas, às vezes pra incomodar a justa serenidade do sossego do quarto, caminhava pelos becos e circunvizinhanças as duas, três horas pra alegrar os notívagos e arriscar minha vida, sempre obviamente com a carteira vazia...
Do meu quarto compus meu livro de poemas, escrito hora em caneta tinteiro envenenada, hora em máquina Remington enferrujada, relíquia do meu avô e destruída por amigos eufóricos
Adoro presenteá-lo a desconhecidos e freqüentemente avisto, na esquina, dois mendigos folheando as páginas dos Poemas Ácidos e eles me acenam fervorosamente quando passo e balançam o livro nas mãos dizendo algo sobre algum poema que vêm lendo.
Eles se levantam e rumamos ao bar para tomar um café
Sempre pago... lógico
Ocasionalmente, aconteciam fantásticas jam’s musicais, onde compúnhamos canções e rocks, fumando cigarros e olhando o som da cidade pelas janelas abertas, surgindo assim uma banda que veio a gravar um disco empoeirado que é tocado no saguão central do Hotel numa velha vitrola de 1958, nas noites de sexta pra alegrar os inquilinos mais idosos, que reclusos preferem o conforto das poltronas, seus chás, dominó e gamão
Nesse interím fui conhecendo outros escritores, que sem lar vieram alugar quartos no Hotel e mesmo outros artistas que sublocaram todo o Subsolo do prédio
Com esses fiz mais amizade e por muito tempo morei junto a eles nos porões, confabulando e perpetrando nossa nova confraria, mas pelo que sei se mudaram para apartamentos na Rua Augusta, em São Paulo.
Nossas intenções não eram de forma alguma muito nobres, sobretudo, porque ademais queríamos ser lidos, fato que em si só, contrariava uma premissa do status quo, que é evitar o conflito
Começamos motivados a realizar leituras e festas, organizar encontros, zines e ...
Mas esperem aí, já estou me estendendo e estou atrasado, deixe eu ir trabalhar para descolar uma grana porque hoje é dia 21 ...
e tenho que pagar o aluguel
...
domingo, 25 de julho de 2010
Destino : autor desconhecido

Peguei estrada às 7 da manhã.
Novamente o puro autoconhecimento da estrada. Mas sei também que há junto comigo, enormes amigos sobrevoando meus passos . Sempre.
Não digo sobre a solidão que existe no coração, quando se apaixona por alguém que não se apaixona por você, ou quando acaba um namoro ou "affair".
Nem talvez a solidão dos ônibus coletivos ou metrôs, cercado de pessoas todas imersas em si, evitando encontrões ou disputando bancos e poltronas.
Nem mesmo a solidão geográfica do estranhamento ao se deparar numa outra cidade em nova faculdade ou emprego.
Digo sobre a transcedental e fantástica solidão ao estar só e ao mesmo tempo confiante e de mãos dadas com o acaso, da permissividade consentida para que o destino aja em sua vida recolhendo as oferendas predispostas na trajetória dos dias.
Há de habitar em si o signo da oportunidade e instituir como bandeira, cravada nos ombros, a aritmética imutável do tempo considerando o futuro equação indivizível.
O futuro é sempre 10 dividido por 3.
Infinito.
O passado é 2 mais 2.
Concreto.
A estrada, portanto, destila sobretudo a máxima... "nada será como antes".
Nasci em Janeiro sou de Aquário, mas ultimamente o signo que profeça minha vida é o desconhecido. Distraído, andava em falta com meu velho amigo. No fim, ele sempre esteve comigo, e eu relapso, não intuía que meu DeuS sempre foi ele.
Erroneamente, rezava por terreiros e catedrais, ajoelhado e imbuído sobretudo de saudade. E saudade sempre tem a ver com o passado.
Foi quando ela me disse, roçando os dedos no meu rosto.
_ Pra que isso menino? Veja que vontade e desejo,inversamente, sempre sugerem e apontam para o futuro.
Sorri, me levantei, pus meus colares no peito novamente e continuei a caminhar.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
África
domingo, 13 de junho de 2010
13 poemas ácidos ... 1 ano
Não é motivo pra soltar foguete, nem mesmo juntar toda a família na sala, mas hoje faz 1 ano que caía nas “más línguas” e na boca do povo, meus 13 POEMAS ÀCIDOS NO BOLSO DA CALÇA. Poesia bandida, marginália enrustida, provocação e desejo.
Eu já não digo mais sobre esse livro bastardo. Ao encontrá-lo nas vielas escuras e portas de banheiros sujos, aviso aos navegantes “LIVRO DE TARJA PRETA, LEITURA SOB LIVRE ARBíTRIO”.
Que rememorar hoje não seja o caso. Skylab, Testa, Juanna, Goma, Casa da Cultura, Coletivo Subsolo, um monte de amigos e a madrugada abraçando-nos. Escrevê-lo foi prazeroso, esforço tremendo para merecer aquela deliciosa orelha “a la Zoppa”. Hum!!! Fez valer a gorjeta do garçom.
Do meu quarto de HOTEL disponibilizo o livro em arquivo PDF, versão revisada para a verve dos incendiários.
Cuidado com os fósforos.
http://rapidshare.com/files/412204961/13poemas_miolo.pdf
Taí o link
O livro pode ser encontrado no
Goma, Sebo Maravilha, Livraria Pro Seculo, Livraria da Edufu, Banca de Revista do Bloco 3Q UFU, Black Toi Tatoo, Livraria Despertar ...
Nos vemos por aí...
sábado, 12 de junho de 2010
de profundis
De tempos em tempos ele atravessa a fronteira
e ruma para o “sul de qualquer lugar”, deslizando em audácia festiva.
Imigrante, passa por locais onde em sonho esteve.
Pontua, tatuado em seu braço, as intensas noites de lua cheia, as algazarras, as festas e as indeléveis sensações.
Rememora e ultrapassa pensamentos.
Há sempre solidão ao estar junto a multidões.
Há sempre um dia que pode ser outro, novo.
Infinitamente pesaroso do passado, se alivia aos nascer do sol. Cada um deles agora abre um rasgo em seu peito e inunda de luz sua vida.
Na profundidade da noite escura, enlameado sob o manto das estrelas, circulado pelos anjos da guarda dos vagabundos, se absolve e se perdoa.
Bate um vento frio no seu queixo.
Como um jab d’um boxeador costarriquenho, o perdão atinge seu coração.
sábado, 29 de maio de 2010
1 ano de Deserto Sonora
Há 1 ano, a Juanna Barbêra, banda da qual eu fiz parte, lançava seu disco Deserto Sonora. Logo em seguida a banda se desfez e cada um dos Barbêras seguiu seu rumo. Uns montaram outras bandas, outros se tornaram produtores culturais, alguns se tornaram artistas multimídia, outros foram se internar em clínicas de reabilitação ou mesmo hospícios e outros foram simplesmente cuidar da vida, o que, convenhamos, já é muita coisa.
A música fica no ar.
O CD com aquela capa maluca do Peyote tornou-se "souvenir" de sebos e colecionadores.
Na minha última busca no Mercado Livre, valia uma fortuna.
Confere aí pro seu deleite.
www.myspace.com/juannabarbera
Verão em terras indígenas

Um índio de Pindorama sentado em sua pedra ancestral, observa solenemente toda a vasta terra que o cerca.
Tendo somente como testemunha, ardendo, o sol selvagem sobre sua pele se lembra de sua tribo, de suas lanças, de seus cocares, de si próprio e dos seus.
Se lembra, como que num sonho, de tudo que existiu.
Planeja sem mesmo saber como, seu retorno.
O que lhe resta? A não ser tudo aquilo que lhe cerca?
Porque? Não há resposta no silêncio.
No entardecer sepulcral da floresta, se ouve um grito primal de um índio de Pindorama, solitário e amargurado.
Trouxeram a ele, os homens que caminham sobre as águas, entre tantas coisas que trouxeram; como dor, sangue e morte, uma palavra que mesmo em outros dialetos e idiomas não se encontra ou acrescenta significado.
Trouxeram a ele a solidão e sobretudo lhe apresentaram enfaticamente, e em bom português de Portugal a palavra... saudade.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
23 de abril - Dia de São Jorge
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Jorge Da Capadócia
“Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo, meu corpo não alcançará
Facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia, viva Jorge!
Jorge é de Capadócia, salve Jorge!
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Perseverança, ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Ogam, Ogam toca pra Ogum
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Jorge é da Capadócia
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Jorge sentou praça na cavalaria
E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Ogam toca pra Ogum
Ogam toca pra Ogum
Jorge da Capadócia”
Oração de São Jorge - Jorge Ben
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terça-feira, 23 de março de 2010
São Jorge Terça-feira 23 Parte II

São Jorge me apareceu num sonho na noite da terça feira 23 de Fevereiro há um mês atrás. Estávamos numa casa no alto de uma montanha, uma construção de madeira ladeada por pedras. Ao fundo se observava um despenhadeiro e se ouvia o barulho de uma cachoeira, que não se via...
Abaixo e ao lado direito, um lago de águas imóveis e azuis. Paz nesse lugar era inevitável. O refúgio perfeito para um guerreiro.
A casa por dentro era de um estilo indefinido, rústico e com vários tapetes e poltronas. Havia uma lareira e também, vejam vocês, um laptop, sobre uma escrivaninha de mogno.
Nas paredes enfeites de várias nacionalidades. Casacos de esquimó, um par de lanças, provavelmente africanas, cruzadas sobre a miniatura de uma fragata espanhola. Vasos de cerâmica indígenas, espadas árabes e adagas japonesas. Vários tabuleiros de xadrez, e ao fundo da sala, um enorme tapete dependurado entre duas pequenas tochas, com a imagem de um dragão verde cuspindo fogo. Belíssimo.
Nos cumprimentamos com aperto de mão.
_Como vai? - perguntou ele.
_Muito bem.
_Vejo. Está mudado.
_São os dias.
Sorrimos um pro outro.
_Em julho do ano passado... porque não nos encontramos? - perguntei.
_Você sabe por quê. Você não quis Robisson. Pouca fé não gera iluminação.
Abaixei a cabeça.
_Não se lamente. Agora sigamos em frente, é o que devemos fazer, sempre.
_Obrigado.
Nos sentamos em poltronas de veludo, e me ofereceu uma bebida que disse ser um conhaque feito pelos marroquinos. Ao beber, pensei ter a mesma consistência e sabor dos conhaques de butequim. E não pude deixar de rir por dentro, ao lembrar das circunstâncias de nosso primeiro encontro, girando em torno de bugigangas do Camelôdromo Central.
''Puta globalização mesmo!'' – pensei.
Tomamos nossos goles em silêncio, saboreando a bebida.
_E o carnaval? Você pula carnaval? - perguntei e São Jorge riu.
_Não diria que pulo carnaval, mas participo. Pra você posso dizer que minha escola é o Salgueiro. Vermelho e branco.
_Ah foi lindo o desfile do Salgueiro, mas eu torço pra Estação Primeira de Mangueira. Salve Dona Zica. Salve Cartola.
_A Mangueira já fez lindos carnavais. Já que lembrou o Cartola, porei um dos discos dele pra ouvirmos.
Abriu um armário sobre uma cômoda e retirou duma vez uns dez discos de vinil. Abriu outra porta e pra minha surpresa vejo surgir um aparelho de som Gradiente de metal prateado.
_ “Verde que te quero rosa”? – perguntou.
_O Cartola de 74 talvez. – retruquei.
Pôs um dos discos na vitrola. São Jorge cantou a plenos pulmões este lindo trecho.
“Acontece que o meu coração ficou frio
e o nosso ninho de amor está vazio.
Ah se eu ainda pudesse dizer que te amo...
Ah se eu pudesse, mas não quero, não devo fazê-lo.
Isso não acontece...”
Bati palmas e acendi um cigarro.
_Já se apaixonou Jorge?
_Sim. De formas diferentes e com várias intensidades. Já destruí reinos por amor e já permiti serenamente que mulheres simplesmente fossem embora por saber ser o melhor, pra nós dois.
_Me identifico.
São Jorge deu uma imensa gargalhada e me serviu mais um gole de conhaque.
_Você Robisson, é um “bon vivant” apaixonado, teu coração bate noutro ritmo.
_Somos dói, meu caro amigo. - sorri.
_Um brinde ao nosso encontro. - caímos na gargalhada.
Era fantástico perceber que toda aquela realidade, aquele encontro, aquele lugar, aquela bebida era tudo um sonho, e que ao mesmo tempo era tudo tão real. Eu sabia que estava dormindo, podia sentir com a ponta dos dedos, minha cama. Mas de olhos fechados não me permitia sair daquele sono.
Então me convidou a jogar uma partida de xadrez, num maravilhoso tabuleiro de pedra sabão, segundo ele presente de uma donzela do sul da Índia.
Eu, destreinado desse nobre esporte não fui páreo a inteligência divina do velho Jorge, e em muitos momentos da partida observei um sorriso irônico, querendo brotar no canto da boca do Santo, como que a zombar da minha inabilidade de enxadrista. Mas em um segundo seu semblante se anuviava, e retomava as feições serenas que guarda o rosto de alguém imortal.
Sobre nos pairava a voz de Cartola, outro imortal.
_Sabe, Robisson, meus dias foram e sempre serão de muitos compromissos e tarefas a cumprir.
_Você é um Santo, irmão. Isso é normal.
-Sim, justamente. Pois eu posso tudo, compreende? Meu ir e vir somente a mim pertence amigo. A clarividência que um santo possui é uma dádiva que elimina qualquer possibilidade de erro, de que o destino nos pregue uma peça, que o acaso te surpreenda...
Seu rosto começou a ficar sério e cansado.
_Enfim, que se tenha o sublime gosto da verdadeira vitória, que somente existe, porque existe a derrota, a queda. Não conheço a superação, pois pra mim só há desejo e realização, compreende?
-Claro. Você pode tudo.
Nesse momento ele se virou e pôs o copo na mesa e me olhou nos olhos.
_Não, eu não posso tudo.
_Como assim?
_Há uma coisa que eu não posso. Somente uma e é a que mais me pesa, Eu não posso errar.
Percebi a angústia de São Jorge ao me dizer isso.
_Robisson meu jovem, veja bem, há um momento em que o homem se torna Deus, quando vence uma doença, quando cria uma obra de arte, faz uma descoberta científica ou escapa de um acidente. Em suma, quando faz algo que poderia dar totalmente errado, mas faz o certo. Isso é um milagre. Quando tudo aponta para o erro e entre um em um milhão, o homem faz a opção certa.
-Entendo.
-Um santo é unânime, irrepreensível, correto, prático e sábio. Perfeito compreende?
-Sim, com certeza.
_Por isso lhe digo que meus dias vêm sendo desde séculos, até a eternidade, de modorrenta mesmice. Meu imenso poder me causa cansaço. Não há surpresas nem novidades em meus dias.
Seus olhos estavam brilhantes agora. O disco do Cartola havia terminado. Levantou e caminhou até a vitrola.
_Vamos ouvir outra coisa? Um rock, que sei que você gosta.
_Pode ser.
São Jorge me saca da vitrola um puta disco dos Pixies e põe pra tocar “Monkey Gone to Heaven”... há um trecho na música que diz:
"if man is 5
then the devil is 6
and if the devil is 6
then god is 7...”
Volta pra sua poltrona e sorridente, me serve mais conhaque marroquino. Acendo um cigarro. Ele se ajeita e continua a falar.
_Quero provar alguns dias de “humanidade”, provar do desconhecido. Quero me ajude, você que sabe como muitos... a viver. Quero estar sujeito às improbabilidades do impossível, ao piscar de olhos do destino. Quero dias regidos pelos astros do desconhecido. Quero o livre arbítrio. Você pode fazer isso? Pode me acompanhar por alguns dias em minha peregrinação pela a Terra? Me guiar e me auxiliar?
Puta que pariu! Eu acostumado a pedir a São Jorge sortilégios, agora me via sujeito da inversa condição. Convidado pelo Santo a promover um milagre em sua vida e levá-lo pela Terra a conhecer os prazeres e a insanidade humana.
_Meu caro Jorge... seria loucura lhe negar esse pedido. Estou a sua disposição.
_Sabia que ia gostar da idéia. Prepare sua mochila, lanterna, suprimentos e coragem. Partiremos a qualquer dia, de hoje em diante.
Perguntei-lhe aonde iríamos e ele me disse que a pergunta era irrelevante pois eu já sabia a resposta. Eu já sabia aonde iríamos? Como assim?
_Até logo Robisson.
_Até Jorge.
Acordei suado e não dormi mais, eram 3 horas da madrugada. Sentei no computador e fui escrever isso.
Agora é esperar. Eu estou pronto. Já sinto o cheiro da estrada no ar.
No mês de Março há outra terça-feira 23.
São Jorge – terça-feira 23 Parte III

Sabia que alguma coisa iria acontecer. Muito provavelmente seria hoje. Talvez antes. Mas intimamente eu previa e supunha que o marco crucial de algo que acabaria por mudar a minha vida, a data-chave para o início da cruzada que São Jorge tencionava realizar seria nesta terça-feira 23 de Março.
Nos dias que se seguiram ao nosso último encontro, em Fevereiro, me envolvi com pesquisas de um novo projeto e saborosamente me tornei um recluso, dormindo e acordando bem cedo, abrindo exceções apenas nas noites bem estreladas, quando parto para algum local descampado e ermo, nos arredores da cidade, munido de um novo presente; um detalhado mapa das constelações. E devidamente bem acompanhado, me pego a decifrar o caminho das estrelas no céu... Andrômeda, Aquário e Peixes já as encontro fácil. Voltando pra casa, olhando a escuridão brilhante dos corpos celestes, me pergunto qual destas estrelas já estaria morta e ainda sim vemos seu brilho anos luz de distância. Um amigo diria n’um de seus poemas
“Vistosa por fora,
Morta por dentro”
Ao acordar, pelas manhãs sincronizo a localização da Lua aguardando seu ilustre morador. Minha grande dúvida é o que exatamente São Jorge gostaria de fazer aqui na Terra? Qual, na verdade, era sua intenção. Quais provações, visões pretende buscar. O que gostaria de ver e sentir? E assim, eu me perguntava, o que mostrar a um homem que é imortal, tem centenas de anos de vidas nas costas, pode fazer milagres bem como o que quer?
Por vários dias e em diversos momentos essa pergunta me inquietou. Em casa, ouvindo música, na rua dirigindo e estacionando o carro, depois do almoço vendo os noticiários de esporte, lendo um livro antes de dormir. A toda hora me pegava pensando no que poderíamos fazer. Ainda por cima, ele havia dito que eu já sabia a resposta. Isso era o que mais me intrigava. Como assim?
Certa noite, fumando um cigarro e contemplando o calor da brasa entre meus dedos, num estalo compreendi que seria talvez aonde eu quisesse levá-lo. Seria essa a resposta? A qualquer lugar? Raciocinei melhor e então vi que o ideal seria irmos a algum lugar também simbólico do que seja a passagem de um Santo pela Terra.
Comecei a repassar mentalmente os lugares que havia estado. Montes Claros, Belo Horizonte, Campinas, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Floripa, Curitiba, Salvador, Recife, Teresina, Porto Seguro, Cuiaba, Goiânia, Brasília... Chapada dos Veadeiros.
Opa... Bingo!!!
Chapada dos Veadeiros, Alto Paraíso e... São Jorge.
Meu Deus!!! Nada poderia ser mais perfeito. Levá-lo à cidade de seu próprio nome, envolta em misticismo e segredos naturais a serem descobertos. O pequeno vilarejo de São Jorge, incrustrado no PARQUE NACIONAL DA CHAPADA DOS VEADEIROS, a mais de 700km de Uberlândia... Local onde julgam muitos, ser um dos pontos de maior energia cinética do mundo, onde se reúnem comunidades de vida alternativa e se encontram Ufólogos e Religiosos de várias tendências. Além de ser um lugar lindo, com várias cachoeiras e paisagens.
Já estive em São Jorge em duas oportunidades, a primeira numa excursão muito louca, acompanhando a extinta banda TULANE, que ia apresentar no Festival de Música da Chapada. Muitos amigos se recordam dessa viagem e do episódio em que o ônibus, chamado por nós de Beethovem (cada parada um concerto), foi abordado num posto policial em Goiás e devido a quantidade de maconha; segundo os policiais ''a maré já tinha chego antes do ônibus, a uns 10, 20 metros”, fomos devidamente extorquidos em uns 200 reais pelos ilustríssimos senhores da lei.
No momento da abordagem, o ônibus parado no posto rodoviário, com a iminência de todas as mochilas serem revistadas, dois estudantes de Direito que estavam sentados bem nas primeiras cadeiras se amedrontaram com a possibilidade de serem autuados por porte de “erva” e não poderem depois prestar suas Provas da OAB, acreditem vocês, comeram todas as suas gramas de maconha, e chegando no camping em São Jorge, dormiram por umas 30 horas dentro de suas barracas, sob o sol esturricante da Chapada.
Algumas meninas que estavam no ônibus tiveram outra idéia; bem melhor do que a dos dois futuros advogados, de esconderem sua maconha dentro das calcinhas. Não é necessário dizer que os baseados bolados por elas, ao pegarmos novamente a estrada, eram os mais disputados.
No final das contas essa viagem foi, um pouco desgastante. Retornei com uma insolação e com um início de pneumonia, adquirida devido à exposição ao sol, ao vento poeirento e ao ar frio da noite. Chegando em Uberlândia cai direto no hospital, internado por dois dias sob soro e antibióticos nas veias.
A segunda vez que estive na Chapada foi diferente, ao menos no que tange minha saúde, mas tão divertida quanto a primeira. Não, minto. Bem mais divertida do que a primeira.
Nessa segunda aventura fui de carona junto com a namorada. Isso foi em 2004. Eu e ela cortamos os mais de 700km de estrada em dois dias. Na noite do primeiro dia dormimos em Brasília numa pensãozinha confortável e hospitaleira, perto do Planalto Central. Depois da janta caminhamos de banho tomado e mãos dadas por quadras e condomínios, na capital do país. Pela manhã, com dificuldade, pegamos carona no trevo de São Gabriel de Goiás e em São João da Aliança, já na estrada de terra que leva a Chapada, empacamos por árduas 4 horas, observando a juventude brasiliense nos fazer comer poeira, ao passar por nós em seus 4x4 e suas pick-ups com garotas só de biquíni nas cabines, nos fazendo caretas e nos chamando de “hippies” e “chinelentos”. Ríamos e cantávamos qualquer canção. Mas lá pelas 4 ou 5 horas, vendo a situação ficar complicada; o sol se preparando pra se pôr e o butiquim onde estávamos, na aridez do Planalto Central, também se preparando pra fechar, resolvemos, eu e ela, pôr em prática o plano B.
“Mocinha de óculos escuro, desprotegida e sozinha na estrada, pede carona, sentada em sua mochila na beira da estrada”.
Fui então me esconder atrás duns arbustos, perto do butiquim tomando uns golinhos da pinguinha que compramos. Depois de um tempo, um casal num Corcel L, parou e ela desembuchou o papo... “meu namorado foi ao banheiro, estamos indo pra São Jorge e bla bla bla...” enfim. Entramos no carro e caímos fora, felizes, indo pro nosso destino final.
Era agosto, mês do aniversário dela e também do Encontro Nacional de Cultura Popular. Um dia depois da nossa chegada, dois casais de amigos de Uberlândia surgiram como “sacys” num redemoinho de poeira, pra nos fazer companhia. Fechando tudo, show de Hermeto Pascoal nos últimos dias. Divertidissímo!!!
Vi então, que acima de tudo pelas coincidências e pelos designos dos Deuses, o destino perfeito prá nós será o Vilarejo de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros.
Hoje às 7 horas da manhã, a campainha de casa toca três vezes. De cara suja ainda, fui abrir a porta.
-Bom dia, Jorge.
-Bom dia, Robisson.
_Já sei pra onde vamos, cara. - eu coçando os olhos e fechando o portão, com São Jorge dentro de casa.
-Eu também já sabia.
-Bicho, vai ser demais.
Minha mochila já estava pronta à alguns dias. Acabei de arrumar o restante das minhas coisas e caímos fora. Não eram 8 da manhã ainda quando pegamos o ônibus e descemos no TERMINAL UMUARAMA. Atravessamos o bairro rumo a Rodovia. Nosso primeiro destino seria Araguari.
Quando jogamos nossas mochilas no asfalto do acostamento, nos olhamos e dissemos sorridentes.
-Fé em Deus, Robisson.
-E pé na estrada, Jorge.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Pinturas Abstratas e Desenhos Rupestres
Essa noite, enquanto ela dormia
cuidadosamente fiz tela de seu corpo
Estampas de tigres asiáticos em seus seios
luminária nas maçãs do rosto
pinturas abstratas em seus ombros
Em suas costas cravei, como asas
duas enormes velas, pra iluminar meu peito
e com a ponta da minha língua, suja da sua tinta
risquei
o interior das suas coxas
Imprimi, na sua cintura, como desenhos rupestres
a ponta dos meus dedos
e a palma da minha mão
e delicadamente, tracei o contorno da minha boca
sobre seus lábios
Quadro terminado
Tinta ainda fresca
Pendurei nas paredes do seu coração
Assinei a obra, nas curvas dos seus tornozelos.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Meus últimos dias em Sodoma
Nos meus últimos dias em Sodoma andei sobre brasas incandescentes
Contraí vírus sanguíneo mortífero e tetânico
Imprimi uma nova religião às prostitutas e frequentei das melhores saunas aos
piores ''boulevares''
Em becos escuros transei com estranhas, arranhando minha pele em arbustos e
galhos secos
Vendi minha alma diversas vezes aos demônios da noite
[impávidos donos da situação eles caminham lentos]
Você treme eles riem
Você implora eles riem
Você se fode eles riem
Nos meus últimos dias em Sodoma abracei e andei com amigos desconhecidos
nos divertindo e confabulando com mascates e falsos pastores de ovelhas.
Traficando com mercadores de absinto, mercadores de ópio, mercadores de
haxixe
em jantares com ilustres cidadãos Sodomitas devorando carne podre e doses de
cicuta
Nos meus últimos dias em Sodoma quis ir até onde conseguisse e quis testar meus
limites
testar os limites do mundo, testar os laços que me sustentam
E tive iluminação...
As estradas são longas, longas, longas
As estradas são minhas amigas
Nelas eu posso confiar
Acreditar que seja verdade onde elas dizem que vão
Sempre
Então sigo sem signo e rumo sem rumo pr'onde sei ser meu lugar
E antes que isto tudo afunde
ou se consuma em fogo
eu
quero estar bem longe
...
domingo, 22 de novembro de 2009
meu amor me agarra e geme e treme chora e mata

Jards Macalé
meu amor é um tigre de papel
range ruge morde
mas não passa
de um tigre de papel
numa sala ausente
meu amor presente
me prende entre os dentes
depois me abandona e vai
definitivamente... definitivamente
ilude desilude range ruge morde
velho tigre de virtude
nas selvas de seu quarto entre florestas
cartas
frases desesperadas
lençóis
onde me ama
furiosas garras meu amor me agarra e geme e treme chora e mata
um tigre de papel perdido nos lençóis da caça
um tigre
perdido
um tigre de papel
perdido
range ruge morde
mas não passa
de um tigre de papel
numa sala ausente
meu amor presente
me prende entre os dentes
depois me abandona e vai
definitivamente... definitivamente
ilude desilude range ruge morde
velho tigre de virtude
nas selvas de seu quarto entre florestas
cartas
frases desesperadas
lençóis
onde me ama
furiosas garras meu amor me agarra e geme e treme chora e mata
um tigre de papel perdido nos lençóis da caça
um tigre
perdido
um tigre de papel
perdido
sábado, 21 de novembro de 2009
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