
Olhos no horizonte
o guerreiro meio perdido estancou frente ao sinal vermelho
Intuitivamente havia de ter percebido
não das ventas mas sim das caudas que não tinham
negra fuligem
Sinal aberto, asfalto molhado pela chuvinha fina do verão de fim de ano
sem causar furor ou mesmo consternação
Hoje ninguém se importa mais com santos. Qualquer oca celebridade os atrai.
Eu, de alma incendiada pela presença de tamanha entidade
me permiti segui-lo abandonando todas as compras, compromissos e horários
Quando teria a oportunidade de encontrá-lo daqui à eternidade
_ Ei São Jorge ... ei.
Era o Camelódromo Central. São Jorge trazia amuletos e cartas pro chinês que vende tênis e que agora queria abrir uma lojinha de produtos religiosos.Puta globalização mesmo.
_ Te levo, bora lá meu velho.
Estacionamos o cavalo entre os mototaxistas e entramos.
_ E agora bicho. Já tem de ir ?
Pensei rapidamente num roteiro bacana pro Santo na cidade de Uberlândia.
_ Pequena, hoje só amanhã. To com São Jorge aqui do meu lado e vamos tomar umas por aí...
No que ela, reticente envolvida às 3 horas da tarde com seu trabalho, nas vésperas do Natal, disse.
_ Tá tá, mas liga pra mim à noite, beijo.
Austero, São Jorge não é de falar muito. E eu, devoto cúmplice que sou do alheio silêncio, compactuei com sua discrição.
_ São Jorge meu cumpadre, pena hoje ser dia de chuva, senão nosso passeio começaria pela cachoeira de Sucupira. Coisa linda é o lugar.
Meio a contragosto dei o rumo já imaginando a água fria que enfrentaríamos.
Ao pegarmos a rodovia o galope do cavalo riscava de faíscas o asfalto como cobras luminosas ziquezaqueando.
Na mesa da ceia de Natal, contariam aos familiares, descrentes, entre uma e outra história.
_ ... e tem mais, nem te conto. São Jorge com um cabeludo na garupa nos cortou perto de Uberlândia. Os meninos estavam dormindo e quando sacudi a Marisa eles já tinham sumido como um raio, é verdade, é verdade...
Para minha surpresa o céu nublado começou a abrir e o sol foi surgindo quente, dando motivo pra ir tirando a camisa. O velho Jorge em sua armadura nem se abalava com o mormaço.
Chegamos à Cachoeira de Sucupira, deserta como deve ser numa terça feira, sua água maravilhosamente brilhante refletindo a luz do sol.
São Jorge aparentava uns 50 anos, tinha o corpo forte e cheio de cicatrizes, que preferi não esmiuçar as origens. Nadava bem e logo para meu espanto estava saltando do topo da queda, uns 15 metros no mínimo.
Tchbum !!!
Nos vestimos e ao irmos embora pediu um minuto. Pensei que o cara ia mijar. Mas não. Atravessou os arbustos e se ajoelhou sobre uma oferenda com duas velas e algumas frutas que alguém havia deixado. Ficou assim por um tempo e depois retornou. Não me dispus a lhe perguntar porque do tal procedimento. Consenti e compreendi que era tarefa e trabalho de santo.
_ Bom agora vamos lá em casa, quero te aplicar um som. Tudo bem ?_ Claro._ Depois vamos num bar perto da Universidade tomar umas. Vou te apresentar pruns amigos que são todos teus fãs.
Ao chegarmos em minha casa, o cavalo não podia, obviamente, entrar. Então o amarramos num poste no terreno baldio da esquina. Ao abrir o portão e passar a chave na porta da sala, me dei conta de que havia um santo em minha casa.
_ Quer um café ? – coisa mais besta de dizer prum santo._ Não.
Liguei o computador. Selecionei o som e equalizei as caixas Satellite.Olhei pro lado e esperei, ainda sim, não esperando absolutamente nada.A música veio como sempre, fantástica.
_ Jorge de Capadócia do disco Solta o Pavão de 1975 do Jorge ainda Ben.
Rolei a lista de reprodução de Jazz.Começou com Charles Mingus estraçalhando em “Moanin”.Bolei um baseado e fumamos, eu e São Jorge, vendo a fumaça subir pelo ar pra fora do quarto pela janela.
Era engraçado como nos entendíamos em silêncio.
Li uns poemas meus que ele parece ter gostado muito. E contei sobre meus planos mirabolantes pra minha vida e de como pretendo lançar meu livro. Obviamente fiz questão de sua presença e o convidei pro lançamento.
Ao chegarmos ao Bar Verde, havia uma confraria de amigos e conhecidos espalhados pelas mesas, coisa pra mim inacreditável por ser praticamente férias da faculdade.
Acreditei, arrogante, ser um sinal do destino ao reunir tantas almas em torno do que viria a ser o encontro de suas vidas.
São Jorge se sentou e pedimos uma cerveja, uma dose e uma porção de queijo com orégano. Eram 6 horas da tarde e o sol se preparava pra se pôr. Friozinho. Fim de tarde na companhia de São Jorge. Quem acreditaria.O santo, agora mais à vontade, falava sobre guerras e batalhas em terras longínquas e de como havia se tornado o padroeiro da Inglaterra.
_ Mas depois das Malvinas, da Thatcher e agora o Blair e essa merda toda de Afeganistão, desisti daquele povo.
Fazia sentido. Muito sentido. Até porque a Igreja Católica já o havia expurgado do rol oficial dos santos há algum tempo. Hoje São Jorge é um santo rebelde, sobrevive através da fé e da tradição e não deve obrigações nem pede autorização ao Vaticano para o que quer que seja. Bebemos em sua homenagem, mais um marginal a nos abraçar.
Ficamos realmente altos e felizes depois de umas cervejas e doses da boa pinga de engenho. Umas moças se engraçaram com São Jorge, que retribuiu os agrados oferecendo ao violão bonita canção medieval do norte da Capadócia.Disseram elas, ser ele, o macho alfa da nossa mesa, eram biólogas perdidas no Campus Santa Mônica. Querendo um pouco mais de diversão nas suas vidas.
Às 9 da noite decidimos ir embora. O Bar Verde sempre fecha a estas horas, pois o Bairro Progresso, apesar do nome, é perigoso durante a noite. É um antigo loteamento incrustado no hoje mais populoso bairro da cidade, o Santa Mônica. E os donos, Reinaldo e Ronaldo, às 7 da manhã estão de portas abertas. Além do que o Verde mais do que um bar é uma mercearia, ou “Venda”, como diria minha Vó , em que você encontra de tudo. De tudo mesmo, até santos vivos.
Nos despedimos dos amigos entre gargalhadas e abraços e seguimos, os dois caminhando sob uma chuvinha fina, levando pelas rédeas o cavalo.
_ E agora vai pra casa?
_ E você vai pra tua casa?
Uma medalha e um escapulário.
Estava escrito em letrinhas miúdas; “perseverança ganhou do sórdido fingimento e disso tudo nasceu o amor”.
_ Até nossa próxima terça feira 23, Robisson.











Pequeno demônio na cabeceira de minha cama































